O que os números digitais dizem sobre o futebol português
O novo relatório do Futebol e Negócios analisa 49 clubes das três competições profissionais e mostra uma presença digital com escala relevante, mas fortemente concentrada no topo da Primeira Liga.
Quando olhamos para o futebol português, habituámo-nos a medir a sua dimensão através de indicadores muito concretos: assistências, receitas, direitos televisivos, transferências, resultados europeus ou número de sócios. Todos eles continuam a ser fundamentais para perceber a força de um clube. Ainda assim, há hoje outro espaço onde essa dimensão também se constrói e se mede: as plataformas digitais.
Foi a partir dessa ideia que o Futebol e Negócios desenvolveu O Mapa Digital dos Clubes Portugueses 2025/26, um relatório que analisa a presença digital dos 49 clubes das três competições profissionais portuguesas — Primeira Liga, Liga Portugal 2 e Liga 3 — em Facebook, Instagram, TikTok, X e YouTube.
O ponto de partida é expressivo. No conjunto, os clubes analisados acumulam 44,7 milhões de seguidores nas cinco plataformas. Este número não representa adeptos únicos, nem mede alcance real, nem permite concluir quantas pessoas acompanham ativamente cada clube. Um mesmo adepto pode seguir o clube em várias redes, e uma parte da audiência pode ter níveis baixos de interação. Mesmo com essas limitações, o dado é relevante porque mostra que o futebol português tem uma presença digital com escala.
A leitura torna-se mais interessante quando se observa a distribuição dessa audiência.
Na Primeira Liga, Benfica, FC Porto e Sporting CP concentram 88,0% da audiência digital acumulada da competição. Em conjunto, os três clubes somam 36,7 milhões de seguidores. A concentração que conhecemos nas receitas, na exposição mediática e na base adepta aparece também, de forma muito clara, no digital.
Este resultado não deve ser lido como uma surpresa. Seria estranho que os três clubes com maior dimensão nacional e internacional não dominassem também as plataformas digitais. O que os números fazem é quantificar essa diferença e tornar mais visível a distância entre os maiores clubes portugueses e o restante ecossistema.
Essa distância tem consequências práticas. Um clube com milhões de seguidores parte de uma posição diferente quando negocia patrocínios, ativa campanhas comerciais, comunica internacionalmente ou lança novos produtos. A audiência digital não substitui receitas tradicionais, nem resolve por si só problemas estruturais, mas é cada vez mais um ativo que influencia a capacidade comercial de uma organização desportiva.
Para os restantes clubes, a conclusão não deve ser que precisam de reproduzir a comunicação dos maiores. A maioria não tem a mesma escala, os mesmos recursos, a mesma pressão mediática ou o mesmo tipo de audiência. A oportunidade está noutro lugar: construir uma presença digital coerente com a sua realidade competitiva, territorial e comercial.
Um clube da Liga 2 ou da Liga 3 pode não ter milhões de seguidores, mas pode ter uma comunidade local forte, uma história relevante, uma ligação emocional à cidade, adeptos espalhados pelo país ou pela diáspora, jogadores em valorização e patrocinadores interessados em proximidade. Tudo isso pode ganhar expressão digital se houver consistência, qualidade editorial e uma noção clara de público.
É aqui que o relatório procura acrescentar contexto. Um ranking nacional único tende a empurrar quase todos os clubes para a invisibilidade, porque a escala dos maiores distorce a leitura. Ao separar a análise por competição, torna-se possível perceber melhor as hierarquias próprias da Liga Portugal 2 e da Liga 3, identificar clubes que se destacam dentro do seu contexto e observar diferenças relevantes entre plataformas.
Esta perspetiva é importante porque o debate sobre o futebol português continua muito centrado na Primeira Liga. A centralização dos direitos televisivos, a sustentabilidade financeira, a competitividade interna e a profissionalização dos clubes são temas essenciais. A presença digital deve fazer parte dessa conversa, não como substituto desses debates, mas como mais uma dimensão da capacidade dos clubes para criar valor.
As plataformas digitais são hoje um ponto de contacto regular entre clubes, adeptos, patrocinadores e comunidades. Servem para informar, naturalmente, mas também para construir relação, recolher dados, vender, ativar parceiros, promover ativos desportivos e reforçar identidade. A diferença entre publicar por rotina e desenvolver uma estratégia digital começa a ter impacto económico.
O Mapa Digital dos Clubes Portugueses 2025/26 mostra um futebol profissional com escala digital relevante, mas muito concentrada no topo. Mostra também que existe espaço para leituras mais finas sobre aquilo que cada clube pode construir dentro do seu próprio contexto.
Os 44,7 milhões de seguidores acumulados ajudam a perceber a dimensão do fenómeno. Os 88,0% concentrados em Benfica, FC Porto e Sporting CP ajudam a perceber a sua estrutura.
Entre uma coisa e outra está talvez a pergunta mais importante para os próximos anos: de que forma podem os clubes portugueses transformar atenção digital em valor real?