Depois dos Golos, Vêm as Contas. E o Início Das Maiores Decisões.

A época acabou; o desafio agora é transformar talento, paixão e audiência em valor sustentável.

20 mai 2026 • há 11 horas
Depois dos Golos, Vêm as Contas. E o Início Das Maiores Decisões.

A temporada terminou. Os campeões foram conhecidos, os lugares europeus definidos (Parabéns a todos!), as descidas e subidas praticamente definidas e os adeptos já começaram a discutir treinadores, plantéis, reforços e ambições para a próxima época.

É, por isso, o momento de fazer um balanço do que foi discutido nestes primeiros 6 meses de artigos no “Futebol e Negócios”. Mas o balanço mais importante do futebol português como um todo não se faz apenas em pontos, golos, títulos ou classificações.

Faz-se numa pergunta muito mais relevante: quanto valor foi criado, quanto valor ficou por capturar e quanto poderia ter sido transformado em receita, investimento, competitividade e sustentabilidade?

O futebol português continua a viver uma contradição evidente. É competitivo na formação, relevante no mercado de transferências, presente nas competições europeias, emocionalmente forte junto dos adeptos e reconhecido internacionalmente pela capacidade de produzir talento.

Portugal exporta talento, mas importa modelos. Forma jogadores, mas ainda não forma suficientemente ativos comerciais. Gera paixão, mas conhece pouco os seus adeptos. Tem clubes históricos, mas nem sempre estruturas preparadas para o próximo ciclo da indústria. Tem estádios, mas poucos funcionam como verdadeiras plataformas de receita. Tem audiência, mas ainda não a transforma de forma sistemática em dados, conteúdo, patrocínio, experiências e valor.

O problema do futebol português não é apenas falta de dinheiro. É, acima de tudo, falta de modelo.

O Contexto Global Mudou

A indústria global do desporto continua a crescer. Segundo a PwC, espera-se um crescimento anual de 7,4% nos próximos três a cinco anos. Mas a Europa aparece abaixo da média, com uma expectativa de crescimento de 6,7%, num mercado mais maduro, mais pressionado e mais dependente da evolução dos direitos audiovisuais.

Este é um dado essencial para Portugal. O mercado cresce, mas já não cresce da mesma forma. Durante décadas, o futebol europeu habituou-se a olhar para os direitos televisivos como o principal motor económico. Esse motor continua a ser crítico, mas já não é suficiente.

Há uma tendência clara que já havíamos trazido aqui: o crescimento dos media rights deverá abrandar, enquanto áreas como sponsorship, ticketing, hospitality, merchandising, experiências e valorização de ativos digitais e comerciais ganham importância no crescimento futuro da indústria.

O futuro não será ganho apenas por quem vender melhor o jogo. Será ganho por quem conseguir vender melhor tudo o que existe à volta do jogo.

Portugal pode continuar a olhar para o futebol como um produto essencialmente televisivo (neste momento na mão dos clubes e do operador), dependente da venda de jogadores, das receitas UEFA e de uma bilhética ainda pouco sofisticada.

Ou pode começar a construir uma visão mais moderna: o futebol como ecossistema de entretenimento, dados, comunidade, conteúdos, experiências, internacionalização, investimento e tecnologia.

A Centralização Dos Direitos É Uma Oportunidade Única. Mas Não Chega.

Não faltam opiniões e comentários sobre como a centralização dos direitos audiovisuais em Portugal, prevista para o ciclo 2028/29, será provavelmente um dos momentos mais importantes da história recente do futebol profissional português.

Mas há um risco evidente: tratá-la apenas como uma negociação televisiva.

Se a centralização for apenas uma forma de vender melhor os jogos em pacote, será positiva, mas insuficiente. Pode aumentar receitas, melhorar previsibilidade financeira e criar alguma redistribuição. Mas não transformará, por si só, o produto.

A pergunta certa não é apenas: quanto valem os direitos televisivos da Liga?

A pergunta certa é: quanto vale o ecossistema total do futebol profissional português?

Esse ecossistema inclui direitos audiovisuais, mas também inclui plataformas digitais, dados, conteúdos, patrocínios, ativações comerciais, internacionalização, academias, futebol feminino, hospitality, estádios, retail, experiências, turismo desportivo, betting, fantasy, comunidades internacionais e relação direta com o adepto.

Centralizar vendas não é o mesmo que centralizar visão.

A centralização só será verdadeiramente transformadora se for acompanhada por uma estratégia integrada para o Produto Futebol Portugal.

Uma estratégia que defina o que queremos vender, a quem queremos vender, como queremos distribuir, que dados queremos recolher, que mercados queremos atingir, que conteúdos queremos produzir, que patrocinadores queremos atrair e que experiência queremos oferecer.

Sem essa visão, a centralização pode tornar-se apenas uma atualização de preço. Com essa visão, pode tornar-se uma plataforma de crescimento.

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