As Cinco (Novas) Economias do Futebol

E porque é que alguns clubes estão a crescer muito mais depressa do que outros, mesmo sem vender mais jogadores?

1 jul 2026 • há 8 horas
As Cinco (Novas) Economias do Futebol

Enquanto Portugal continua demasiado dependente das transferências, as economias de futebol e os clubes mais inovadores do mundo estão a criar valor através dos adeptos, dos dados, da inteligência artificial, do conteúdo e das experiências.

O futebol entrou numa nova era económica.

Durante décadas, a economia do futebol foi relativamente previsível. As receitas vinham da bilheteira, dos direitos televisivos, dos patrocínios e da venda de jogadores. Quem conseguia crescer nestas quatro áreas tornava-se financeiramente mais forte.

Mas essa realidade está a mudar rapidamente.

Hoje, os clubes mais “inovadores” já não competem apenas dentro das quatro linhas. Competem pela atenção dos adeptos, pela qualidade dos seus dados, pela capacidade de criar conteúdos, pela utilização da inteligência artificial e pelas experiências que conseguem oferecer antes, durante e depois dos jogos.

O ativo mais importante deixou de ser apenas o plantel (sim, é verdade!).

Passou a ser o ecossistema que o rodeia.

É por isso que organizações como o Real Madrid, Manchester City, Tottenham Hotspur, Formula 1, NFL ou até o Wrexham estão a crescer a um ritmo superior ao da maioria dos clubes europeus.

Não porque vendam mais jogadores. Mas porque descobriram novas formas de criar valor.

Portugal, apesar da enorme qualidade desportiva, continua ainda demasiado dependente da economia das transferências.

O próximo ciclo de 4 anos decidirá se continuamos apenas a formar talento ou se passamos também a construir uma indústria capaz de gerar valor muito para além do mercado de jogadores.

Existem cinco (novas?) economias que ajudam a explicar esta transformação.

As cinco economias do futebol

Fan Economy

O adepto deixou de ser consumidor. Passou a ser um ativo.

Durante muitos anos, um adepto valia praticamente aquilo que gastava em bilhetes ou quotas.

Hoje vale muito mais.

Cada adepto pode consumir conteúdos diariamente, comprar merchandising online, subscrever serviços digitais, viajar para acompanhar a equipa, participar em programas de fidelização e influenciar milhares de outras pessoas através das redes sociais.

O conceito passou de Matchday Revenue para Fan Lifetime Value.

O melhor exemplo é provavelmente o Wrexham. Quando Ryan Reynolds e Rob McElhenney adquiriram o clube em 2021, tratava-se de uma equipa da quinta divisão inglesa com reduzida projeção internacional.

Quatro anos depois, impulsionado pela série Welcome to Wrexham da Disney+, o clube soma cerca de 40 milhões de seguidores nas principais redes sociais, vende merchandising para dezenas de países e atrai patrocinadores globais que dificilmente investiriam num clube desta dimensão.

O estádio continua praticamente o mesmo. A comunidade deixou de ser local. Porque mudou a narrativa e o storytelling passou a ser global.

A NFL percebeu exatamente a mesma tendência. Hoje organiza jogos oficiais em Londres, Frankfurt, São Paulo e Madrid porque sabe que um adepto internacional pode gerar receitas durante décadas, mesmo que nunca visite os Estados Unidos.

A pergunta para Portugal é simples: quantos dos milhões de adeptos espalhados pelo mundo conhecem realmente os clubes portugueses?

Data Economy

Os dados são o ativo mais valioso do desporto.

Durante anos, muitos clubes confundiram seguidores com relacionamento.

Mas seguidores pertencem ao Instagram, ao TikTok ou ao Facebook. Os dados pertencem ao clube. E isto importa repetir milhares de vezes.

É essa diferença que está a transformar o futebol.

O Real Madrid, que estima uma comunidade global superior a 600 milhões de adeptos, deixou de medir apenas seguidores nas redes sociais. O objetivo passou a ser converter essa audiência em utilizadores registados através das suas plataformas digitais, permitindo conhecer preferências, hábitos de consumo e interesses. Simples, não é?

O Manchester City, através do City Football Group, investiu fortemente numa infraestrutura global de dados que integra bilhética, memberships, comércio eletrónico e aplicações móveis, permitindo personalizar a relação com milhões de adeptos.

Os benefícios são claros.

Clubes que trabalham sobre first-party data conseguem aumentar significativamente as taxas de abertura de campanhas, melhorar a conversão comercial e aumentar a receita por adepto.

Em Portugal, muitos clubes continuam com sistemas isolados de bilhética, sócios, CRM, loja online e aplicações móveis (os que têm). Na prática, o mesmo adepto pode existir cinco vezes em cinco bases de dados diferentes. Sem uma visão única do adepto, torna-se impossível personalizar, antecipar necessidades ou maximizar receitas.

AI Economy

A inteligência artificial democratizou a personalização.

Há poucos anos, criar uma comunicação personalizada para milhões de adeptos exigia equipas enormes e investimentos elevados.

Hoje, a Inteligência Artificial permite produzir conteúdos, traduzir automaticamente, recomendar produtos, responder aos adeptos e segmentar campanhas praticamente em tempo real.

A NBA já utiliza IA para gerar conteúdos automáticos, produzir destaques personalizados e melhorar a interação digital com os adeptos.

A Formula 1 utiliza inteligência artificial para acelerar a produção de conteúdos, análise de corridas e criação de experiências digitais personalizadas para diferentes públicos.

A grande mudança não está apenas na tecnologia. Está na redução drástica dos custos.

Aquilo que há cinco anos era acessível apenas às maiores organizações está hoje ao alcance de praticamente qualquer clube.

Mas existe uma condição essencial. Sem dados organizados, a Inteligência Artificial pouco pode acrescentar.

Os dados são o combustível. A IA é apenas o motor.

Creator Economy

Os clubes transformaram-se em empresas de media.

Durante décadas, os clubes comunicavam resultados. Hoje contam histórias.

O exemplo mais evidente vem novamente da Formula 1. A série Drive to Survive transformou completamente a perceção da modalidade, atraindo milhões de novos adeptos, especialmente jovens e público feminino, aumentando audiências televisivas, patrocinadores e o valor global do campeonato.

O Wrexham repetiu exatamente a mesma lógica. Antes mesmo das promoções desportivas, foi o documentário que transformou um pequeno clube galês numa marca reconhecida mundialmente.

Cada vídeo publicado pode hoje gerar audiência, notoriedade, dados, receitas publicitárias, patrocinadores e vendas.

O jogo passou a ser apenas uma parte do produto.

O conteúdo tornou-se permanente.

Experience Economy

O jogo dura 90 minutos. A experiência pode durar o ano inteiro.

Os estádios deixaram de ser apenas locais onde se joga futebol. Transformaram-se em plataformas de entretenimento.

O Tottenham Hotspur Stadium é provavelmente o melhor exemplo europeu. Além dos jogos da Premier League, recebe encontros oficiais da NFL, concertos internacionais, eventos corporativos, experiências premium, visitas ao estádio, restaurantes e atrações como a Sky Walk.

O resultado é simples. O estádio gera receitas durante praticamente todo o ano.

A mesma lógica pode ser encontrada no SoFi Stadium, em Los Angeles, ou em muitos recintos da NBA, onde o objetivo deixou de ser vender apenas um bilhete.

O foco passou para o Revenue Per Fan: quanto consegue um clube gerar, em média, por cada adepto.

Portugal tem ainda um enorme potencial por explorar nesta área. Hospitality, experiências premium, turismo desportivo, conteúdos exclusivos, visitas aos estádios e programas de fidelização continuam largamente subaproveitados.

E em Portugal?

O futebol português tornou-se uma referência mundial na formação de talento.

Mas continua excessivamente dependente da venda de jogadores para equilibrar as suas contas.

Essa realidade torna o sistema vulnerável aos ciclos do mercado de transferências.

As cinco economias apresentadas não substituem esse modelo. Complementam-no.

Criam novas receitas, aumentam o valor das marcas, fortalecem a relação com os adeptos e reduzem a dependência de fatores externos.

Portugal tem qualidade desportiva, clubes históricos, talento e uma diáspora com milhões de potenciais adeptos espalhados pelo mundo.

O desafio dos próximos 4 anos será transformar esse potencial em valor económico.

Porque os vencedores do futebol do futuro não serão apenas aqueles que descobrirem os melhores jogadores.

Serão aqueles que melhor conhecerem os seus adeptos, utilizarem os seus dados, criarem melhores experiências e desenvolverem comunidades globais.

O futebol continua a jogar-se em noventa minutos. Mas a economia do futebol joga-se 365 dias por ano.

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