Mudar de Ideias Não É Incoerência. É Liderança. E o Futebol (Ainda) Não Percebeu.
Perante novas formas de criar valor, insistir nas métricas de sempre deixou de ser prudência. Da Fan Economy à AI Economy, Nuno Mena explica por que os clubes precisam de rever convicções e medir o verdadeiro valor económico de cada adepto.
Cinco economias e o IVA (não é o imposto)
Durante anos, o futebol português habituou-se a medir o sucesso através das assistências, do número de sócios, das audiências televisivas ou dos seguidores nas redes sociais. Todas continuam a ser métricas importantes. Mas deixaram de ser suficientes.
Porque afinal quanto vale, financeiramente, um adepto?
Não quanto paga por um bilhete. Nem quanto custa uma quota. Mas quanto pode gerar ao longo de toda a sua relação com o clube.
Curiosamente, sabemos responder rapidamente ao valor de um jogador, de um contrato televisivo ou de um patrocinador.
Mas poucos clubes conseguem responder à pergunta: Quanto vale um adepto durante 10, 20 ou 30 anos?
Talvez seja precisamente aqui que esteja uma das maiores oportunidades económicas do futebol português e europeu.
Já o maior ativo ainda não aparece nas contas
Tenho vindo a defender que o verdadeiro desafio da indústria não passa apenas pela negociação dos direitos audiovisuais. Passa por aumentar o valor do próprio produto.
E o valor desse produto começa na perceção das “diferentes economias” que existem no futebol, neste momento.
O mais recente relatório do Futebol e Negócios sobre a presença digital dos clubes portugueses demonstra que a Liga Portugal e as Sociedades Desportivas reúnem uma comunidade digital superior a 40 milhões de seguidores.
À primeira vista, o número impressiona. Mas existe um problema:
Seguidores não são clientes.
Likes não são receitas.
Audiência não é, por si só, um ativo económico.
Enquanto essa relação permanecer dentro do Instagram, Facebook, TikTok ou YouTube, o verdadeiro proprietário dos dados continua a ser a plataforma.
O ativo só passa verdadeiramente para o clube quando esse adepto é identificado, conhecido e integrado no seu ecossistema digital. É aí que começa a criação de valor.
Quanto dinheiro está realmente em jogo?
Façamos um exercício:
Imaginemos que os clubes portugueses conseguem converter apenas 5% da sua audiência digital em adeptos registados nas suas próprias plataformas. Num universo superior a 40 milhões de seguidores, isso representa aproximadamente 2 milhões de adeptos identificados.
Agora imaginemos que cada um desses adeptos gera apenas 25 euros por ano através de merchandising, bilhética, memberships, conteúdos premium, programas de fidelização, parceiros comerciais ou experiências.
O resultado é simples.
50 milhões de euros de novas receitas recorrentes por ano.
Sem vender um único jogador.
Sem renegociar os direitos televisivos.
Sem aumentar o preço dos bilhetes.
Se essa receita média aumentasse para 40 euros por adepto, o potencial ultrapassaria os 80 milhões de euros anuais.
E se os clubes evoluíssem para níveis de conversão semelhantes aos observados nas organizações desportivas mais avançadas, estaríamos a falar de uma nova categoria de receitas estruturais para o futebol português.
A verdadeira questão deixa então de ser:
“Quantos seguidores temos?”
E passa a ser: “Quanto valor conseguimos criar com eles?”
Fan Economy, Data Economy e AI Economy: a nova cadeia de valor
É precisamente aqui que entram três das cinco novas economias do futebol.
A Fan Economy ensina-nos que o adepto deixou de ser apenas um consumidor de bilhetes para passar a ser um ativo económico de longo prazo.
A Data Economy demonstra que o verdadeiro valor já não está na dimensão da audiência, mas na capacidade de conhecer cada adepto, compreender os seus comportamentos e construir uma relação personalizada.
E a AI Economy permite fazer aquilo que, até há poucos anos, era praticamente impossível: personalizar a comunicação, automatizar campanhas, recomendar produtos, antecipar comportamentos e criar experiências únicas para centenas de milhares de adeptos em simultâneo.
As três economias não competem entre si.
Complementam-se.
Sem adeptos não existem dados.
Sem dados não existe Inteligência Artificial útil. E mais de 75% dos clubes não têm identidade digital dos seus adeptos.
Sem Inteligência Artificial torna-se muito mais difícil transformar dados em receitas.
É esta cadeia que explica porque algumas organizações, em várias áreas, estão a aumentar o seu valor muito mais rapidamente do que outras.
Mas esta é apenas metade da transformação
Conhecer melhor os adeptos é apenas o primeiro passo. A criação de valor cresce quando essa relação é alimentada diariamente.
É precisamente aqui que entram duas outras economias que irão marcar o futuro da indústria.
A Creator Economy, onde os clubes, os seus fãs e adeptos deixam de ser apenas organizações desportivas para se tornarem produtores permanentes de conteúdo, capazes de gerar novas audiências, aumentar a exposição internacional e criar novas fontes de receita.
E a Experience Economy, onde o estádio deixa de ser apenas um local para assistir a um jogo e passa a ser uma plataforma de entretenimento, hospitalidade, turismo, experiências premium e consumo durante os 365 dias do ano.
Se a Fan Economy, a Data Economy e a AI Economy respondem à pergunta “Como conhecemos melhor os nossos adeptos?”, a Creator Economy e a Experience Economy respondem à questão seguinte: “Como aumentamos o valor que cada adepto gera ao longo da vida?”
É precisamente sobre estas economias que incidiremos.
IVA. A grande e nova métrica do “futebol negócio”
Como referimos, durante décadas medimos aquilo que era mais fácil contar.
Assistências.
Sócios.
Seguidores.
Visualizações.
Mas nenhuma destas métricas responde à pergunta que verdadeiramente interessa a um presidente, a um administrador ou a um investidor.
Quanto valor económico cria cada adepto ao longo da sua relação com o clube?
Por isso, chegou o momento de o futebol português começar a medir não apenas a dimensão das suas comunidades, mas o valor que consegue criar com elas.
Nos próximos artigos, aqui no Futebol e Negócios, apresentaremos um novo conceito de análise para a indústria: o IVA, Índice de Valor do Adepto.
O futuro do futebol não será decidido pelos clubes com mais seguidores ou pelos que vendem mais.
Será decidido pelos clubes que conseguirem transformar cada adepto num ativo estratégico, recorrente e sustentável.