Modelo multi-clube ganha escala, mas riscos de integridade aumentam
Relatório da UEFA aponta mais de 345 clubes em redes de multi-propriedade; queda recente no número de negócios contrasta com avanço de participações minoritárias.
O que aconteceu
O modelo de multi-propriedade de clubes (MCO) consolidou-se no futebol europeu e global. Segundo o mais recente relatório de investimento da UEFA, no final de 2025 existiam mais de 345 clubes integrados em estruturas MCO (menos de 60 há dez anos). Em ligas como Bélgica, Dinamarca, Portugal, Escócia e Suíça, mais de um terço dos clubes de primeira divisão está em redes MCO. Na Europa, 122 clubes de topo (16%) têm pelo menos uma participação cruzada com outro clube. Apesar de em 2024 e 2025 terem ocorrido 33 negócios/ano, o ritmo total abrandou, enquanto as participações minoritárias cresceram de 22% (2022) para 36% (2025). A Premier League tem três quartos dos seus clubes ligados a redes MCO, geralmente como ativos “âncora”.
Por Que Importa
- Consolidação acelera: MCO permite escala operacional, partilha de scouting, dados e talento, comprimindo custos e mitigando risco desportivo entre geografias.
- Janela de oportunidade: fragilidades financeiras pós‑pandemia e quebras nos direitos televisivos (ex.: Ligue 1) criam ativos subavaliados, atraindo capital, sobretudo norte‑americano (c. 50 grupos MCO).
- Regulação e integridade: a UEFA alerta para ameaça material à integridade competitiva quando clubes com o mesmo proprietário se defrontam; potenciais restrições podem reprecificar ativos e travar aquisições.
- Estratégia de portefólio: clubes “juniores” funcionam como plataformas de desenvolvimento e venda, reforçando o retorno do investimento (ROI) do grupo, mas podem sacrificar ambição desportiva local.
Contexto
- Drivers macro: dólar forte, juros elevados e necessidade de liquidez dos clubes criam espaço para entradas com desconto e estruturas de participação minoritária (menor exposição e maior flexibilidade regulatória).
- Inglaterra no topo da cadeia: a dominância financeira da Premier League transforma os seus clubes no vértice das redes, capturando valor via empréstimos, vendas internas e arbitragem salarial.
Entre Linhas
- Conflitos de interesse permanecem o principal risco: interdição de duplo controlo em competições da UEFA pode obrigar a reorganizações societárias ou blind trusts (não confirmado quanto ao modelo final), com impacto nos múltiplos de avaliação.
Números
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345 clubes em MCO (2025) vs. <60 (há 10 anos)
- 122 clubes de 1.ª divisão na Europa com cross‑investment (16%)
- 33 negócios/ano em 2024 e 2025
- Participações minoritárias: 22% (2022) → 36% (2025)
- ~75% da Premier League ligado a redes MCO