Mundial 2030, futebol feminino e novos públicos fecham o Portugal Football Summit
O último dia do PFS ligou a preparação do Mundial à expansão do futebol feminino e às novas formas de consumo. Infraestruturas, proteção das jogadoras e capacidade de reter talento completaram o debate em Oeiras.
O terceiro e último dia do Portugal Football Summit, a 25 de setembro, na Cidade do Futebol, em Oeiras, colocou o crescimento da indústria em três frentes: preparar o Mundial 2030, alargar o mercado do futebol feminino e adaptar a oferta aos hábitos dos adeptos. Ao longo da sexta-feira, os debates juntaram oportunidades comerciais e necessidades de organização, desde a atração de seleções para Portugal até às condições de trabalho das jogadoras e dos dirigentes.
Mundial 2030: atrair seleções e prolongar estadias
O painel de encerramento sobre o Mundial 2030 reuniu Pedro Dias, secretário de Estado do Desporto, António Laranjo, responsável da FPF pelo projeto, Lídia Monteiro, do Turismo de Portugal, e Luís Rodrigues, da TAP. A discussão incidiu sobre a capacidade de transformar o torneio em procura para o turismo, os transportes e as infraestruturas desportivas.
António Laranjo afirmou que Portugal quer captar seleções para os seus centros de treino, apoiando-se nas condições de preparação, na hospitalidade e no clima. Lídia Monteiro defendeu que o objetivo é receber adeptos e prolongar a sua permanência no país, além de acolher equipas e imprensa.
Da parte da TAP, Luís Rodrigues revelou a criação de uma equipa dedicada ao ciclo até 2030, com trabalho de coordenação e parcerias para assegurar ligações. Pedro Dias associou ainda o evento às metas de crescimento da prática desportiva feminina e do desporto para pessoas com deficiência.
Futebol feminino: mercado, investimento e proteção laboral
Na abertura do dia, Nadine Kessler, diretora de Futebol Feminino da UEFA, apresentou a profissionalização como uma transformação já em curso. Segundo os números que partilhou, o setor passou de poucas centenas de futebolistas profissionais para mais de quatro mil ao longo de uma década, acompanhando o aumento da visibilidade e do interesse comercial.
Kessler destacou o papel das grandes competições na geração de receitas para reinvestir na modalidade, mas também a necessidade de instalações que permitam às raparigas começar a jogar. Sobre Portugal, elogiou a estratégia de desenvolvimento e apontou o estádio dedicado ao futebol feminino em Braga e a chegada do FC Porto à primeira divisão como sinais de evolução.
A profissionalização foi também discutida pela perspetiva de quem joga. O Sindicato dos Jogadores, representado por Carla Couto, Matilde Fidalgo e Micas, defendeu garantias remuneratórias e de saúde, o combate a contratos atípicos e maior proteção da maternidade. Entre as propostas apresentadas esteve a extensão automática do contrato em caso de gravidez ou licença, para reduzir as barreiras à continuidade da carreira.
Conhecer o adepto para distribuir melhor
O painel sobre personalização da experiência digital juntou Marc Watson, da Deltatre, Patrick Fischer, da OneFootball, e Peter Hutton, administrador da Saudi Pro League, numa conversa moderada por Luís Vicente, da APEX.
Fischer defendeu que conhecer cada consumidor é essencial para responder às mudanças nos hábitos de consumo, destacando os resumos e os conteúdos de criadores. Watson sublinhou a necessidade de acompanhar continuamente as preferências dos adeptos para ajustar as experiências digitais.
Hutton identificou oportunidades em Portugal na distribuição das transmissões e nos modelos de pagamento. Como exemplo da aproximação entre jogadores e público, explicou que a liga saudita disponibiliza uma aplicação aos atletas para partilharem vídeos e conteúdos dos bastidores. A questão comercial atravessou o painel: tornar a oferta mais relevante para cada adepto e facilitar o acesso ao conteúdo que procura.
Reter talento exige condições e capacidade de gestão
No debate sobre o que distingue o futebol português, Helena Pires, CEO da FPF, referiu a presença de mais de 2300 jogadores portugueses em 84 países. André Viana, do SC Braga, reconheceu a capacidade nacional de identificar e desenvolver talento, mas defendeu maior atratividade e melhores condições para o reter.
O investimento na formação teve um exemplo concreto na academia da AF Santarém. Joaquim Martinho, presidente da associação, disse que a obra estava executada em cerca de 50% e apontou a conclusão para dezembro, com inauguração prevista para março de 2027. O projeto deverá criar melhores condições para atletas, treinadores e outros agentes desportivos, incluindo campos e equipamentos de apoio.
Também a ANDIF alertou para a dificuldade de captar e manter dirigentes nos clubes de base. Formação, literacia financeira e apoio ao trabalho voluntário foram apresentados como condições para assegurar a continuidade dessas organizações.
Crescer com representação e continuidade
Laura McAllister, vice-presidente da UEFA, defendeu maior presença de mulheres e de outras perspetivas nos órgãos de decisão. Sustentou que o crescimento comercial deve acompanhar o desenvolvimento desde a base e preservar a participação dos adeptos.
No encerramento, Pedro Proença retomou o lema «Viemos para ganhar». A FPF confirmou o regresso do PFS de 22 a 24 de setembro de 2027.
O último dia deixou uma exigência comum às várias oportunidades de negócio: criar condições para que o crescimento dure. O Mundial pode atrair visitantes e seleções, o futebol feminino pode ampliar o mercado e o digital pode aproximar novos públicos. O valor dessas oportunidades dependerá da execução — nas instalações, na gestão, na proteção de quem trabalha no futebol e na experiência oferecida a quem o acompanha.