Centralização dos direitos e novas receitas dominam arranque do Portugal Football Summit

A venda conjunta dos direitos televisivos, a dependência da Champions e o potencial comercial dos estádios marcaram o primeiro dia do encontro, em Oeiras. Arbitragem e futebol feminino também entraram no debate.

23 set 2026 • 22:00 • 5 min de leitura
Centralização dos direitos e novas receitas dominam arranque do Portugal Football Summit

O futuro das receitas dos clubes portugueses esteve no centro do primeiro dia do Portugal Football Summit, realizado esta quarta-feira, 23 de setembro, na Cidade do Futebol, em Oeiras. Entre a centralização dos direitos audiovisuais, a exposição financeira à Liga dos Campeões e o potencial comercial dos estádios, as intervenções apontaram diferentes caminhos para reduzir a dependência de receitas incertas.

Na sessão de abertura, Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol e anfitrião do evento, defendeu a construção de um futebol português mais forte, coeso e resiliente. A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes apresentou-o como um ecossistema também económico, científico e tecnológico, apelando à colaboração entre clubes, instituições e empresas.

Direitos televisivos: calendário definido, consenso por construir

O presidente da Liga Portugal, Reinaldo Teixeira, detalhou as próximas etapas da comercialização centralizada: leilão da produção, venda dos direitos domésticos entre janeiro e março de 2027 e venda dos direitos internacionais. A Liga aponta para a conclusão do processo até ao final de 2027, antes do início da exploração conjunta em 2028/29.

Para Miguel Ribeiro, presidente da SAD do Famalicão, a venda conjunta pode dar aos clubes de menor dimensão mais capacidade para competir, embora considere lento o avanço do processo. O debate entre dirigentes de clubes mostrou, contudo, que não há consenso sobre o modelo. Carlos André Gomes, presidente do Marítimo, rejeitou a proposta e lembrou o peso das deslocações de um clube insular. Cláudio Couto, vice-presidente do SC Braga, apoiou a centralização, mas defendeu que ela deve ser acompanhada pela valorização internacional da competição. Joel Pinho, presidente do Arouca, alertou que a medida, por si só, não resolverá as dificuldades financeiras dos clubes. Os três apontaram a pirataria como obstáculo ao crescimento das receitas.

Champions, transferências e estádios

A fragilidade das fontes de receita também surgiu no painel sobre a economia do futebol. Nuno Catarino, CFO do Benfica, afirmou que a Liga dos Campeões é a maior fonte de receitas do clube, acima da venda de jogadores, e que a SAD precisa de conseguir resistir a um ou dois anos de maus resultados. Francisco Salgado Zenha, vice-presidente do Sporting, destacou a valorização e venda de jogadores e o investimento em Alvalade; apontou como objetivo duplicar as receitas ligadas ao estádio num prazo de dez anos.

O presidente leonino, Frederico Varandas, associou a presença na Champions à capacidade de contratar e reiterou a importância do ciclo de formação, valorização e venda de atletas. Segundo os números que apresentou, o volume de negócios do Sporting passou de 150 milhões de euros em 2018 para 300 milhões, enquanto as receitas de merchandising, bilhética e estádio aumentaram de 50 milhões para 100 milhões. Varandas apontou a conclusão da modernização de Alvalade até 2030 como parte da estratégia de crescimento comercial.

O painel sobre o negócio global do futebol alargou a discussão à identidade dos clubes. Tatjana Haenni, CEO do RB Leipzig, defendeu que as novas receitas exigem experiências capazes de atrair adeptos mais jovens. Marco Fassone, antigo dirigente do futebol italiano, alertou que investidores estrangeiros precisam de compreender a cultura e o mercado de cada clube para transformar capital em resultados concretos. Umberto Gandini, também com experiência na gestão de clubes italianos, apontou o investimento insuficiente em infraestruturas durante os anos de maiores receitas televisivas como uma fragilidade que ainda pesa sobre o futebol italiano.

Governança e novas oportunidades

Na arbitragem, José Fontelas Gomes, vice-presidente da FPF, defendeu a criação de uma entidade externa para gerir o setor e apoiar a profissionalização dos árbitros. A proposta está a ser discutida com a APAF, a Liga e as associações distritais e regionais.

O futebol feminino foi apresentado como um mercado em expansão que exige continuidade estratégica. Mariana Gutiérrez Bernárdez, presidente da Liga Feminina MX, destacou a alteração do modelo competitivo e a distribuição dos jogos por várias plataformas. Kerstin Lutz, CEO da Mercury 13, pediu maior investimento e consolidação, enquanto Reyes Bellver, da federação espanhola, apresentou o plano ELEVA. Atrair público para os estádios e para as transmissões surgiu como objetivo comum.

No debate sobre novas audiências, Tiago Gouveia, diretor de marketing do FC Porto, defendeu que os clubes devem manter-se relevantes para lá dos dias de jogo. Representantes da Puma e da Avery Dennison abordaram a fragmentação do consumo digital e novas formas de ligação aos adeptos, incluindo emblemas com chips. À escala regional, a AF Braga apresentou o Braga Football Hub e a AF Vila Real anunciou uma academia em parceria com o município.

O primeiro dia deixou uma pergunta para todo o futebol português: como transformar a atenção que o jogo gera em receitas duradouras? A venda conjunta dos direitos pode mudar a distribuição do valor televisivo, mas o debate mostrou que a sustentabilidade dependerá também do controlo dos custos, do combate à pirataria e da capacidade de cada clube criar negócios próprios, dentro e fora do estádio.

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