Braga, Estrela e Wrexham mostram caminhos de crescimento no Portugal Football Summit
O investimento em estádios e centros de treino, a escolha de parceiros para as SAD e a expansão comercial dos clubes marcaram o segundo dia do encontro em Oeiras.
O segundo dia do Portugal Football Summit, realizado esta quinta-feira, 24 de setembro, na Cidade do Futebol, em Oeiras, mostrou duas formas de aumentar o valor de um clube: investir nos espaços que recebem os adeptos e levar a sua história a públicos que estão longe do estádio. O plano anunciado pelo SC Braga e o caso do Wrexham deram exemplos concretos a uma agenda marcada também pela centralização dos direitos audiovisuais e pelas novas formas de distribuição de conteúdos.
Braga quer multiplicar receitas do estádio
António Salvador apontou um investimento de cerca de 50 milhões de euros para remodelar o Estádio Municipal de Braga. O presidente do clube disse que está a negociar com a Câmara Municipal a compra do recinto e que a infraestrutura precisa de melhores condições para os adeptos e de mais capacidade comercial.
Segundo Salvador, o estádio gera atualmente cerca de 2,5 milhões de euros por ano. O objetivo é elevar essa receita para 12,5 a 15 milhões de euros anuais, através da remodelação e de uma melhor exploração do espaço. O dirigente defendeu ainda que a centralização dos direitos televisivos só será útil se vier acompanhada de um modelo sustentável para os clubes.
O Estrela da Amadora apresentou outra aposta nas infraestruturas. Johannes Mösmang, novo presidente da SAD, anunciou a intenção de construir, nos próximos dois anos, um centro de treinos para a equipa principal e os escalões sub-23 e sub-19, além de modernizar o Estádio José Gomes. O plano desportivo é estabilizar primeiro o clube a meio da tabela e, num horizonte de três a quatro anos, disputar o acesso às provas europeias. São objetivos anunciados pelo dirigente, dependentes da execução do projeto.
Na discussão sobre capital externo, Rui Rodrigues, presidente do Vitória SC, defendeu a continuidade da relação com a VSports. Considera o investimento estrangeiro inevitável no futebol português, mas disse procurar um parceiro que partilhe os objetivos do clube, alertando para os riscos de escolhas que comprometam a estabilidade das sociedades desportivas.
Wrexham: da comunidade ao alcance mundial
Robert Faulkner, diretor de Negócios e Comunicação do Wrexham, explicou como o documentário sobre o clube ajudou a levar uma história local a uma audiência global. O dirigente sublinhou que a comunidade de adeptos já tinha mobilizado recursos para salvar o emblema antes da entrada de Ryan Reynolds e Rob McElhenney e que preservar essa relação continua a orientar decisões, incluindo os preços dos bilhetes.
Faulkner afirmou que a conta do clube passou de cerca de 50 mil para cinco milhões de seguidores ao longo da sua ascensão desportiva e mediática. Segundo os números que apresentou, os patrocínios na camisola do Wrexham já valem mais do que os de sete clubes da Premier League. O crescimento levou também a investimentos no relvado, no centro de treinos e na academia. A ambição declarada é chegar à Premier League, mas o caso apresentado em Oeiras mostrou sobretudo como notoriedade, patrocínios e capacidade operacional têm de crescer em conjunto.
Direitos, criadores e experiência dos adeptos
A venda conjunta dos direitos voltou ao debate no painel sobre o futuro da centralização. André Mosqueira do Amaral, diretor executivo da Liga Portugal, descreveu-a como um ponto de partida para melhorar a produção, a distribuição e a relação com os adeptos. Reconheceu que boa parte da interação nas redes sociais chega do estrangeiro, mas ainda não é monetizada. José Miguel Albuquerque, CEO do Alverca, defendeu uma produção televisiva uniforme, o combate à pirataria e regras que garantam que as novas receitas sejam investidas na melhoria do produto. Rui Alves, presidente do Nacional, contestou o modelo previsto: receia que a distribuição perpetue a desigualdade entre clubes e pediu uma avaliação independente e mecanismos de proteção para os mais pequenos.
Na economia dos conteúdos, o painel de criadores mostrou a importância de canais capazes de chegar a públicos diferentes dos da televisão tradicional. Michiel Callebaut apontou o YouTube e as visualizações como base do seu modelo; os intervenientes defenderam que clubes e marcas precisam de definir o objetivo da colaboração com criadores para que a audiência se traduza em valor.
A experiência de quem acompanha o jogo também apareceu na discussão tecnológica. Harry Lennard, da Genius Sports, apresentou o sistema de fora de jogo semiautomático e afirmou que reduziu, em média, em 33% o tempo necessário para uma decisão de fora de jogo. A rapidez e a clareza dessas decisões, defendeu, são relevantes para os adeptos no estádio e diante dos ecrãs.
Na gestão desportiva, José Boto explicou a abordagem do Flamengo: o diretor de futebol coordena diariamente equipas multidisciplinares, para lá do trabalho de recrutamento. O dirigente afirmou que o clube mantém a estratégia definida pela direção mesmo sob pressão de comentadores e criadores digitais, e que contrata sobretudo para melhorar o rendimento da equipa, não para vender jogadores.
Crescimento também começa na base
Os debates das associações regionais trouxeram outra escala de investimento. A AF Viana do Castelo, com mais de 60 clubes e sete mil atletas federados, disse ter equipado os clubes com câmaras para transmitir jogos e apoiar a formação de treinadores. Nos Açores, os dirigentes das três associações apontaram os custos das deslocações entre ilhas e a falta de instalações como obstáculos ao crescimento, sobretudo do futebol feminino. Em Castelo Branco, a associação destacou o aumento de praticantes de futsal de base, mas alertou para a perda de jovens em vários escalões do futebol.
A inclusão passou ainda da intenção à organização. A UEFA explicou como mede as suas políticas de direitos humanos e acessibilidade; no painel da Fundação FPF, Miguel Barbosa anunciou o primeiro campeonato nacional de futebol para amputados ainda este ano. A experiência dos adeptos com deficiência, da compra do bilhete à chegada ao estádio, também foi discutida. Já a associação dos médicos de futebol pediu melhores condições de trabalho e recordou os cursos de emergência e a distribuição de desfibrilhadores pelas associações distritais.
O segundo dia mostrou que o crescimento se decide em vários níveis: no capital e nos parceiros escolhidos pelos clubes, na capacidade de transformar estádios e conteúdos em receitas, e nas condições de quem forma jogadores e recebe adeptos. Os planos anunciados em Oeiras terão de se traduzir em infraestruturas, melhores transmissões e oportunidades de participação para que o valor criado chegue a todo o futebol.