Série A sob pressão: despesas superam receitas e dependência de vendas cresce
Liga italiana entra em desequilíbrio operacional em 2024/25; estádios obsoletos, governança frágil e menor investimento no plantel corroem competitividade e receitas.
O que aconteceu
A Série A italiana encerrou 2024/25 com despesas médias (€161,6M) acima das receitas (€160,4M) pela primeira vez desde a Covid-19. Em 2025/26, a liga enfrentou maus resultados europeus (saídas prematuras nas competições da UEFA), polémicas de arbitragem com suspensão do chefe de árbitros de Série A e B, e a demissão do presidente da federação (FIGC), Gabriele Gravina. Em paralelo, o presidente da Série A, Ezio Simonelli, pediu alinhamento político para destravar receitas, incluindo projectos de estádios.
Por Que Importa
- Margens em erosão: despesas +11% desde 2022/23 vs receitas +6,1% pressiona caixa e limita investimento desportivo.
- Modelo de negócio desequilibrado: clubes recorrem a vendas de jogadores para fechar contas; em 2024/25, lucros de vendas médias (€44M) cobriram 102% da amortização (€43M).
- Activos subaproveitados: estádios datados travam receitas de bilhética, hospitalidade e eventos; processos burocráticos e políticos travam novos projectos.
- Competitividade europeia em risco: menos investimento em plantel e saída de talentos enfraquecem a proposta comercial (direitos, patrocínios, audiência internacional).
Contexto
- Tentativa de internacionalização falhada: jogo AC Milan–Como 1907 na Austrália foi cancelado por “complicações de última hora” — oportunidade perdida, segundo Simonelli.
- Casos de integridade: nova crise na arbitragem reacende memórias do Calciopoli (há 20 anos), afectando a confiança do mercado e a valorização de direitos.
- Governança e infraestruturas: segundo Valerio Casagrande (ex-CFO do Parma) e Marco Iaria (La Gazzetta dello Sport), burocracia, constrangimentos arqueológicos e política atrasam Roma e San Siro, travando crescimento de receitas.
Números
- Receitas médias por clube (2024/25): €160,4M; despesas: €161,6M.
- Receitas comerciais e de dia de jogo: +6% e +8% desde 2022/23; transmissões (emissão televisiva) estáveis.
- Top-4 da Série A: receitas +<8% em 2022/23–2024/25; investimento em plantel (salários + amortização) -1,2%.
- Transferências: 2/3 das maiores vendas 2022/23–2024/25 foram para o estrangeiro (ex.: Højlund, Kvaratskhelia, de Ligt, Tonali).
- Resultados líquidos médios por clube: perdas reduziram de €22,4M (2022/23) para €15,5M (2024/25), à custa de mais-valias em vendas.
Entre Linhas
- Ligas “perseguidoras” — Primeira Liga (Portugal), Süper Lig (Turquia), Eredivisie (Países Baixos) — crescem mais depressa em receitas e investimento, encurtando distâncias, apesar de ainda ficarem bem abaixo da Série A em volume absoluto. Ajustes inflacionários na Turquia podem inflacionar números.
E agora?
- Alinhamento público-privado para estádios e diversificação de receitas não televisivas serão críticos.
- Reduzir dependência de vendas de jogadores para sustentar qualidade desportiva e valor comercial a médio prazo.
- Reforçar compliance e integridade para proteger a valorização de direitos e patrocínios.