Centralizar A Visão De Produto

A centralização pode ajudar, mas sem disciplina, produto e estratégia não transforma o futebol português.

2 abr 2026 • há 1 hora
Centralizar A Visão De Produto

O futebol português prepara-se para um dos momentos mais importantes da sua história recente. Mas convém dizê-lo sem rodeios: centralizar os direitos audiovisuais não é o mesmo que transformar o sistema.

No último artigo, falámos sobre a importância do “novo dinheiro” servir apenas para aliviar pressão imediata e prolongar a dependência do curto prazo, ou seja, manter um sistema ligado ao oxigénio, mas com as mesmas fragilidades.

E por isso, adicionámos que a próxima revolução não pode ser apenas comercial e centrada no Adepto, tem de ser Financeira.

(Antes de mais, desejar a todos os leitores e subscritores os Votos de Boa Páscoa.)

Durante anos, o debate sobre os direitos televisivos em Portugal foi dominado por uma promessa quase automática: quando a centralização chegar, o futebol português dará finalmente o salto.

A ideia é sedutora.

Mas é incompleta e redutora.

Porque a centralização pode resolver uma parte do problema — o da fragmentação comercial e da desigualdade excessiva na distribuição do valor audiovisual — sem resolver o essencial: a estrutura económica, a qualidade do produto, a disciplina do sistema e a forma como esse novo dinheiro será absorvido.

É por isso que este tema exige mais lucidez do que entusiasmo. A centralização é necessária.

Mas, por si só, não basta. As regras são essenciais.

O Mercado Europeu Mostra Que O Valor Dos Direitos Não Nascem Apenas Da Negociação

Não sendo especialista, basta olhar para os principais campeonatos para perceber que o valor audiovisual não é apenas função de escala. É função de produto, distribuição, previsibilidade, governance e capacidade de transformar atenção em ativo.

A Premier League concluiu o seu novo ciclo doméstico de 2025/26 a 2028/29 por £6,7 mil milhões em quatro anos, o maior contrato de direitos desportivos da história do Reino Unido, com um aumento de 4% face ao ciclo anterior. Mas o mais relevante está no modelo:

  • mais jogos em direto
  • forte estabilidade comercial
  • distribuição interna que combina base igualitária, mérito competitivo e exposição mediática

A LaLiga, por sua vez, assegurou para o ciclo 2027/28–2031/32 mais de €6,135 mil milhões em direitos domésticos, um crescimento de 9% sobre o ciclo anterior. Esse valor resulta de uma estrutura centralizada já madura, estabilizada e apoiada numa lógica mais ampla de controlo económico, internacionalização e produto.

Na Bundesliga, o novo processo para 2025/26–2028/29 garante cerca de €1,121 mil milhões por época para os 36 clubes da Bundesliga e Bundesliga 2. O crescimento é mais contido, mas o modelo alemão continua a merecer atenção por outra razão: a distribuição não assenta apenas em performance. Combina:

  • uma forte componente de repartição igualitária
  • uma componente de mérito desportivo
  • critérios adicionais ligados a interesse de mercado e desenvolvimento estrutural

Ou seja: os grandes mercados não vendem apenas jogos.

Vendem produto. Vendem previsibilidade. Vendem distribuição. Vendem confiança.

E é precisamente isso que Portugal ainda está longe de ter consolidado.

Portugal Não Parte Apenas Atrás No Valor. Parte Atrás Na Maturidade Do Modelo

É aqui que a conversa precisa de deixar de ser ingénua e trazer responsabilidades a quem a tem, pois o Decreto-Lei n.º 22-B/2021 é precisamente de 2021.

Portugal chega a este momento com um mercado que continua a viver sob contratos individualizados de longa duração, com forte polarização interna junto dos clubes e fraca capacidade de construir um ativo verdadeiramente integrado.

O relatório da UEFA é explícito: o modelo português gerou a distribuição televisiva mais polarizada da Europa.

Não esquecer o âmbito deste artigo: a próxima revolução não pode ser apenas comercial e centrada no Adepto, tem de ser Financeira.

Em 2024, os clubes da Liga Portugal geraram €618 milhões de receita total, excluindo transferências. Desse valor:

  • €182 milhões vieram da TV doméstica
  • €167 milhões vieram da UEFA
  • €78 milhões vieram da bilheteira

Ao mesmo tempo:

  • os salários atingiram €471 milhões
  • o wage ratio chegou a 76%
  • os custos operacionais foram de €295 milhões
  • o resultado antes de impostos foi de -€47 milhões
  • o capital próprio líquido agregado ficou em €77 milhões
  • a dívida bancária bruta em €706 milhões

Estes números dizem-nos uma coisa muito simples:

O futebol português já não tem apenas um problema de falta de receita. Tem um problema de qualidade da receita, de concentração da receita e de fragilidade do modelo que a consome.

É por isso que a pergunta relevante não é apenas “quanto valerá a centralização?”. É: “o que mudará estruturalmente quando esse dinheiro entrar?”

França Mostra Como Uma Centralização Mal Resolvida Pode Destruir Valor

Há cerca de uma semana tive uma interessante conversa precisamente sobre este tema com três profissionais de excelência da nossa indústria.

Se, por um lado, a Premier League, LaLiga e Bundesliga mostram o lado virtuoso de mercados que conseguiram consolidar produto e distribuição, França oferece o exemplo mais útil do que pode correr mal.

Em agosto de 2024, a LFP anunciou acordos com DAZN e beIN SPORTS para a Ligue 1:

  • a DAZN ficava com 8 jogos por jornada, em direto e em exclusivo, por cinco temporadas
  • a beIN ficava com 1 jogo por jornada

A própria LFP apresentava o acordo como estruturante para o futuro dos clubes.

Poucos meses depois, começaram os problemas.

  • Em fevereiro de 2025, a LFP confirmou oficialmente que estava em mediação com a DAZN.
  • Em maio de 2025, LFP Media e DAZN anunciaram o fim do litígio.
  • Em julho de 2025, a liga lançou oficialmente a plataforma LIGUE 1+, apresentada como “a nova casa da Ligue 1”.

O caso francês mostra três coisas:

  1. Centralizar não chega se a distribuição não estiver verdadeiramente estabilizada. 2. Um parceiro de media não substitui uma estratégia de mercado. 3. Migrar para um modelo DTC pode ser uma oportunidade, mas também uma admissão de que o modelo anterior não entregou o valor esperado.

Portugal deve olhar para França com muita atenção, como alerta.

Porque também aqui o risco existe: acreditar que a centralização, só por si, criará automaticamente mais valor, mais equilíbrio e mais sustentabilidade.

Pode criar.

Mas só se:

  • o produto estiver à altura
  • o modelo estiver bem desenhado
  • a distribuição estiver protegida
  • a lógica de gestão mudar

O Verdadeiro Problema Do Futebol Português Não É Distributivo. É Estrutural.

Há um erro recorrente neste debate: reduzir o problema português à desigualdade de repartição.

Essa desigualdade existe e vai ser muito mitigada.

Mas não explica tudo.

Porque o sistema continua a ser fraco em quase todas as áreas que determinam o valor futuro de um produto moderno:

  • monetização do matchday
  • experiência premium
  • exploração do estádio
  • first-party data
  • plataformas próprias
  • integração comercial
  • capacidade internacional
  • produto digital
  • ativação contínua do adepto

A centralização pode melhorar o valor do pacote audiovisual.

Mas não resolve, por si só, a incapacidade de transformar o futebol português num ecossistema mais recorrente, mais digital, mais comercial e menos dependente da exceção.

O Que Portugal Devia Centralizar Não É Apenas A Venda. É A Visão De Produto.

A centralização bem feita não deve ser apenas um exercício de negociação coletiva.

Deve ser o momento fundador de uma nova lógica de produto, alavancado pelas Sociedades Desportivas.

Uma lógica em que o audiovisual deixa de ser apenas transmissão e passa a ser também:

  • distribuição digital
  • betting data
  • highlights
  • inventário comercial conjunto
  • experiência integrada
  • capacidade de construir uma relação contínua com o consumidor

No fundo, a centralização não deve servir apenas para vender melhor o que já existe.

Deve servir para tornar o futebol português mais vendável.

E isso exige mais do que um novo contrato.

Exige:

  • controlo financeiro constante, antes, durante e depois da época
  • governance
  • investimento obrigatório em tecnologia, dados, operação comercial e experiência de adepto
  • critérios
  • disciplina

Sem isso, a centralização será uma melhoria administrativa.

Não uma reforma estrutural.

Conclusão

A centralização dos direitos audiovisuais pode ser uma oportunidade histórica para o futebol português.

Pode:

  • reduzir assimetrias
  • reforçar o valor coletivo da Liga
  • melhorar a força negocial do produto

Mas o mercado europeu mostra uma verdade simples: os direitos valem mais quando o sistema vale mais, porque construíram produto, distribuição, confiança e regras.

E França mostra que, sem isso, até uma liga grande pode transformar direitos num problema em vez de os transformar numa alavanca.

Portugal não precisa apenas de centralizar.

Precisa de centralizar com estratégia.

A Liga Portugal está a defini-la, mas não chega: é preciso que as Sociedades Desportivas a sigam.

E isso leva-nos ao próximo ponto.

Próximo ponto

Se a centralização não basta, então qual é o ativo que pode realmente mudar o valor do matchday, do digital, do comercial e até do próprio audiovisual?

A resposta é simples — e já falámos dele aqui:

o adepto.

Se o formulário não aparecer, subscreva diretamente aqui.

Sem spam. Pode cancelar quando quiser. Ao subscrever aceita os Termos de Utilização da Substack, a Política de Privacidade e o Aviso de recolha de informação.