Centralização dos Direitos Audiovisuais é O Momento de Verdade do Futebol Português
A centralização dos direitos televisivos do futebol português, obrigatória a partir de 2027/28, é mais do que uma imposição legal: é uma oportunidade histórica para transformar a Liga Portugal num produto de valor global através da cooperação coletiva
A centralização dos direitos audiovisuais do futebol profissional em Portugal deixou de ser uma discussão académica ou uma aspiração estratégica. Tornou-se uma obrigação legal.
O Decreto-Lei n.º 22-B/2021 determinou que os direitos televisivos das competições profissionais passem a ser comercializados de forma centralizada, devendo o novo modelo entrar plenamente em vigor após a época 2027/28. A decisão coloca o futebol português perante uma transformação estrutural que outras grandes ligas europeias enfrentaram há décadas.
Mas a verdadeira questão já não é se a centralização vai acontecer. A pergunta relevante é outra: o que será feito com ela?
Porque centralizar direitos não cria valor automaticamente. Apenas cria a possibilidade de o criar.
Durante anos, o futebol português viveu num modelo de negociação individual, em que cada clube comercializava os seus direitos de transmissão de forma autónoma. Este sistema gerou contratos relevantes para alguns clubes, mas nunca permitiu valorizar verdadeiramente o campeonato enquanto produto coletivo.
O resultado é conhecido: uma enorme disparidade de receitas televisivas entre clubes e um produto que, apesar da qualidade desportiva e da capacidade formadora, permanece subvalorizado no mercado internacional.
A centralização pretende justamente alterar essa lógica.
Mais do que vender jogos, trata-se de vender a Liga Portugal como um produto integrado, capaz de gerar valor através da escala, da previsibilidade e da consistência comercial.
Neste processo, o papel da Liga Portugal assume uma relevância central. A criação da estrutura responsável pela centralização e a preparação do modelo de comercialização demonstram que o setor está, finalmente, a entrar numa fase de planeamento estratégico que o futebol português raramente conheceu.
Numa recente entrevista ao jornal Record, o CEO da Liga Portugal, André Mosqueira do Amaral, revelou que existem já sete potenciais interessados na aquisição dos direitos audiovisuais do campeonato, antecipando um processo de concursos estruturados que deverão ocorrer nos próximos anos.
Este dado revela duas realidades importantes.
A primeira é que existe interesse de mercado. A segunda é que a centralização já começou a ser vista pelos operadores como uma oportunidade de investimento num produto com potencial de crescimento.
Mas transformar interesse em valor exigirá mais do que um processo de venda bem conduzido. Exigirá uma visão clara sobre como estruturar o novo modelo económico da liga.
Entre as propostas que têm sido discutidas no âmbito da centralização, destacam-se várias medidas que poderão ser determinantes para o sucesso do projeto.
A primeira é a definição de um modelo de distribuição equilibrado das receitas, inspirado nas principais ligas europeias. Normalmente, estes modelos combinam três critérios: uma componente fixa distribuída de forma igualitária entre os clubes, uma componente associada ao desempenho desportivo e uma componente ligada às audiências ou ao valor comercial.
Este equilíbrio é essencial para garantir competitividade sem comprometer a lógica meritocrática da competição.
Uma segunda dimensão fundamental é a estruturação de pacotes comerciais diferenciados. A venda centralizada permite segmentar o produto em diferentes categorias, jogos premium, pacotes digitais, highlights ou direitos internacionais, maximizando o valor global da operação.
Em paralelo, torna-se essencial investir na produção televisiva centralizada, assegurando padrões técnicos uniformes e uma experiência visual consistente. No futebol moderno, a qualidade da transmissão é parte integrante do produto.
Outra dimensão frequentemente subestimada é o potencial da distribuição digital e das novas plataformas de consumo. O valor dos direitos audiovisuais já não reside exclusivamente na televisão tradicional. A exploração de conteúdos digitais, clips curtos, plataformas OTT e formatos adaptados às redes sociais tornou-se uma parte essencial da economia do desporto.
Mas talvez o maior potencial da centralização esteja no plano internacional.
Portugal possui uma liga competitiva, reconhecida pela formação de talento e pela capacidade exportadora de jogadores. Contudo, a projeção internacional da competição permanece muito aquém do seu potencial. Um modelo centralizado permite finalmente desenvolver uma estratégia global de comercialização, particularmente relevante em mercados com forte ligação cultural ou linguística.
Tudo isto exige, no entanto, um elemento muitas vezes negligenciado no futebol: governação coletiva eficaz.
A centralização representa, no fundo, um novo contrato entre clubes. Um compromisso de cooperação num setor tradicionalmente marcado por interesses divergentes e por uma forte fragmentação institucional.
Se esse compromisso existir, o futebol português poderá finalmente dar um salto estrutural na valorização do seu principal ativo coletivo.
Se não existir uma visão estratégica clara e um verdadeiro alinhamento entre os diferentes stakeholders, a centralização corre o risco de se transformar numa oportunidade perdida. Porque, no final, a centralização não é apenas uma operação comercial; é sobretudo um teste à capacidade do futebol português de se pensar e de se organizar como uma verdadeira indústria. Durante décadas, os clubes portugueses venderam os seus jogos de forma individual, num modelo fragmentado que limitou o potencial coletivo do produto “Liga Portugal”. A centralização surge, por isso, como uma oportunidade histórica para mudar esse paradigma, criar escala, aumentar valor e posicionar o futebol português de forma mais competitiva no mercado internacional.
E é nessa transformação que se decidirá o verdadeiro futuro económico da Liga Portugal. Mais do que uma reforma regulatória, a centralização representa um momento de responsabilidade coletiva para todo o ecossistema do futebol português. Cabe à Liga Portugal continuar o trabalho estrutural que tem vindo a ser desenvolvido, criando as condições institucionais e comerciais para que este processo seja conduzido com visão, transparência e ambição. Mas a centralização não será bem-sucedida apenas pela ação da Liga. Exigirá também que os clubes compreendam verdadeiramente a dimensão do que têm em mãos. Mais do que um novo modelo de venda de direitos televisivos, está em causa a possibilidade de redefinir a competitividade, a sustentabilidade financeira e a projeção internacional do futebol português. A centralização é, em última análise, uma oportunidade histórica. Aproveitá-la dependerá da capacidade coletiva de perceber que, desta vez, o sucesso individual de cada clube passa inevitavelmente pelo sucesso do produto comum que todos representam, futebol português.