A Guerra pelo Controlo do Futebol Europeu
Impulsionado por novas competições e intervenções judiciais, o futebol europeu entrou numa guerra estrutural sem precedentes para responder a uma única questão: quem manda no mercado?
O futebol europeu entrou numa fase que já não é apenas desportiva, é estrutural. A discussão em torno da reformulação da Champions League, o ressurgimento jurídico da Super League e a crescente intervenção dos tribunais europeus não são episódios isolados. São sintomas de uma disputa de poder e a pergunta que se impõe é: quem controla o mercado do futebol europeu?
Durante décadas, a arquitetura competitiva assentou numa tensão relativamente estável entre mérito desportivo e redistribuição financeira. Esse equilíbrio está hoje sob pressão. A expansão das competições europeias, o aumento do número de jogos e a previsibilidade de receitas para os participantes recorrentes não são meros ajustes técnicos mas sim instrumentos de consolidação económica.
Quando os mesmos clubes participam sistematicamente nas fases decisivas, a retórica da competitividade transforma-se numa narrativa confortável. O sistema mantém-se formalmente aberto no entanto economicamente fechado.
A eventual consolidação de uma Super League com outro nome, outra roupagem jurídica ou outro modelo de governação não representaria uma rutura cultural; representaria a formalização daquilo que já existe de facto: um núcleo duro de clubes que operam numa escala financeira incomparável com o restante ecossistema.
A consequência não é apenas desportiva. É sistémica.
A previsibilidade de receitas plurianuais altera radicalmente o perfil de risco dos clubes envolvidos. A capacidade de financiamento, o acesso a crédito, a estrutura de dívida e o próprio valuation passam a assentar em fluxos quase garantidos. Em contraste, os clubes fora desse núcleo vivem numa economia de incerteza altamente dependentes de qualificação ocasional, vendas extraordinárias e exposição pontual.
Portugal é particularmente vulnerável a esta transformação. Enquanto mercado exportador de talento, a valorização dos seus ativos depende da visibilidade europeia. Se o acesso se tornar mais restritivo ou estruturalmente concentrado, o efeito não será apenas uma redução de receitas diretas. Será uma compressão do valor de mercado dos próprios jogadores.
O debate deixou de ser “desportivo” no momento em que entrou no Tribunal de Justiça da União Europeia. A decisão que abriu espaço jurídico à Super League não foi um aval moral, mas uma afirmação clara de que a governação do futebol não está imune ao direito da concorrência.
A UEFA já não pode ser vista apenas como regulador desportivo é também um agente económico com poder de mercado. Essa mudança altera a lógica de autoridade. As regras de acesso, as autorizações e as sanções deixam de ser apenas instrumentos associativos e passam a ser escrutinadas como mecanismos de controlo concorrencial.
O futebol europeu está, assim, a ser forçado a assumir aquilo que sempre foi, uma indústria altamente regulada.
E quando o futebol se assume como indústria, as estratégias mudam:
- Os contratos passam a incorporar cenários alternativos de competição.
- As cláusulas de receita mínima garantida tornam-se essenciais.
- Os mecanismos de sell-on deixam de ser acessórios e passam a ser instrumentos estruturais de proteção.
- O financiamento com base em receitas futuras ganha sofisticação jurídica e financeira.
A incerteza regulatória já influencia negociações internacionais. Clubes ajustam projeções com base em probabilidades de acesso europeu. Agentes negociam contratos considerando cenários competitivos distintos. Investidores exigem maior previsibilidade.
A verdadeira questão não é se haverá ou não uma nova competição. A questão é se o futebol europeu continuará a fingir que o modelo atual é sustentável.
A polarização estrutural é o risco real.
- Um bloco fechado, financeiramente robusto, com receitas estáveis e capacidade de investimento exponencial.
- E um bloco aberto, estruturalmente dependente, que vive de ciclos de valorização de ativos e de sucessos episódicos.
Mercados excessivamente polarizados tendem a gerar instabilidade. No futebol, essa instabilidade manifesta-se sob a forma de endividamento crónico, litigiosidade crescente e dependência de capital externo.
A próxima década não será definida por resultados desportivos. Será definida por decisões regulatórias.
E talvez a provocação final seja esta:
Se o futebol europeu já funciona como um mercado semi-fechado, altamente concentrado e financeiramente desigual, não será mais honesto assumir essa realidade e regulá-la como tal?
Porque o maior risco não é a criação de uma nova competição. O maior risco é continuar a sustentar um modelo que proclama mérito enquanto estrutura privilégio.
E quando o discurso e a estrutura deixam de coincidir, o mercado, mais cedo ou mais tarde, ajusta-se.