Do Adepto ao Ativo (Parte 2)
Entre a centralização dos direitos e o Mundial 2030, a transformação da paixão do adepto em dados auditáveis é o único caminho para evitar o custo brutal do atraso e garantir a valorização comercial dos clubes.
A janela 2024–2030: porque o “depois logo se vê” vai custar caro
Na primeira parte deste caminho contextualizámos a importância real do conhecimento e da conversão desse conhecimento do adepto num ativo comercial, financeiro e contabilístico.
Neste segundo momento, vamos começar a enquadrar na realidade de Portugal e Brasil, criando o caminho para o processo de como o fazer e como chegaremos ao valor de cerca de €120M.
O relógio está a contar
Durante anos, o futebol viveu com uma premissa confortável: “temos adeptos, temos audiência (e dinheiro da TV), logo temos valor.” Hoje, o mercado já não remunera potencial, remunera resultados e valor.
E isso significa saber quatro coisas simples:
- Identidade: quem é o adepto
- Comportamento: o que faz e com que frequência
- Atribuição: o que gera (receita, retenção, influência)
- Recorrência: capacidade de prever e repetir valor
Em Portugal, a centralização dos direitos audiovisuais está legislada (tarde, mas está) e abre um período curto e crítico de preparação antes do novo modelo. Mesmo que os detalhes finais variem, há algo que é estrutural: métricas de audiência, implantação e relação com o mercado e com o adepto passam a pesar (e muito!).
Se não existir forma de medir, através de base de dados identificada e provas de engagement, perde-se poder negocial quer internamente (distribuição) e externamente (media, patrocinadores e investidores).
No Brasil, o racional é similar: o ecossistema próprio evolui para modelos onde a capacidade de provar audiência própria, ativação e inventário digital determinam o preço e as condições e não apenas a dimensão histórica da marca. Existem muitos casos que sustentam esta realidade.
O custo do atraso é silencioso, mas brutal: entra-se na nova fase com métricas fragmentadas (seguidores, views, estimativas) e sem “fonte de verdade” auditável.
Mundial 2030: a maior montra (ou o maior desperdício)
A co-organização de um Mundial não é apenas visibilidade e mediatismo. É um pico irrepetível de aquisição de visitantes, audiência global, atenção mediática e curiosidade internacional.
Sem infraestrutura digital pronta (não só nos estádios onde se vai jogar, mas sobretudo fora):
- visitantes e audiências passam… e não ficam
- interesse internacional não se converte em registos, CRM, compras e recorrência
- perde-se a oportunidade de criar bases globais (membership digital, e-commerce, comunidades)
Com infraestrutura pronta:
- cada interação vira um registo associado a um Fan ID (1st party data)
- cada fan tendencialmente vira um perfil cada vez mais 360
- cada campanha vira receita atribuível e mensurável
A diferença entre “participámos na montra” e “capitalizámos a montra” mede-se em:
- milhares de novos registos
- novas receitas recorrentes (sobretudo internacional)
- maior poder negocial para media e patrocinadores
Criando uma valorização do “Produto” (expressão muito em voga) no contexto onde até onde ela não era feita – com visitantes externos e em mercados onde não havia chegada do nosso futebol (ou a existir era residual).
“First-mover advantage” é real (e acumulativo)
No digital, quem começa primeiro não ganha apenas tempo, ganha vantagens cumulativas:
- dados históricos (matéria-prima do valor)
- modelos preditivos melhores (aprendem mais cedo)
- custos de aquisição menores (criam hábito e canal próprio)
- barreiras à entrada (integração + experiência + cultura)
No futebol, a paixão já existe. A vantagem competitiva nasce quando se transforma paixão em recorrência económica.
O Que Vem a Seguir?
O timing não é nota de rodapé, é o diferencial.
Quem entra rapidamente no processo de ter uma base identificada e ativável vai negociar em posição de força. Quem não entrar, vai pagar “taxa de atraso” (e não se poderá queixar).
A solução não é “mais uma app ou um site novo”. É um roadmap de 4 fases, com estratégia, governance, arquitetura de dados e quick wins.
E é sobre isso que vamos falar no próximo artigo.
(“A” nota de rodapé: o anterior artigo recebeu uma particular atenção do mercado, tendo sido inclusivamente objeto de um artigo no Jornal Económico de dia 30/01/2026 assim como de uma entrevista no programa “Jogo Económico da “A Bola TV” na mesma data. A todos muito obrigado).