Seguro Desportivo é a Apólice que Está a Lesionar os Clubes.

Embora o futebol português caminhe para a modernização, o atual modelo de seguros de acidentes de trabalho impõe custos asfixiantes aos clubes sem lhes transferir o risco real, tornando-se uma ameaça invisível à sustentabilidade financeira do setor

23 jan 2026 • 16:10
Seguro Desportivo é a Apólice que Está a Lesionar os Clubes.

O futebol português está a entrar numa fase de sofisticação regulatória, TV centralizada, sustentabilidade financeira, governação societária e internacionalização. Mas há um elemento estrutural que permanece invisível no debate público e que pode determinar quem resiste e quem não tanto, e esse elemento é o seguro profissional dos jogadores.

Em Portugal, os clubes estão legalmente obrigados a contratar um seguro de acidentes de trabalho para todos os atletas profissionais, condição indispensável para registar contratos e participar nas competições oficiais. Em teoria, trata-se de um instrumento civilizacional que é proteger o trabalhador da especificidade da sua atividade, num setor de risco elevado por definição.

O problema não é o princípio será sim o modelo.

Hoje, os clubes suportam prémios de seguro individual que podem ascender a 18%–20% da massa salarial bruta, um encargo que em muitos casos se transforma no segundo maior custo operacional do clube, apenas atrás dos próprios salários. Não existe nenhum outro setor económico português em que a obrigatoriedade de seguro se aproxime deste nível de intensidade financeira.

Pior será que, apesar deste encargo, o risco económico permanece praticamente todo no clube. Em caso de lesão, o jogador continua a receber 100% do seu salário e o clube continua responsável por pagar. As seguradoras, na prática, só entram na equação para indemnizações de incapacidade permanente, despesas de tratamento e outras situações muito específicas. Ou seja, os clubes pagam como se transferissem o risco, mas o risco não sai do balanço.

Enquanto isso, o debate internacional começa a mover-se noutra direção. A FIFA introduziu o Club Protection Programme, que cobre lesões decorridas em seleções a partir de 28 dias, mas apenas em contexto internacional e com limites definidos. Tratado-se de um penso rápido, não de solução.

O resultado, em Portugal, é um modelo disfuncional que penaliza especialmente os clubes médios e pequenos, aqueles que não dispõem de uma almofada financeira, nem de rotação de mercado, nem de receitas de Champions para absorver estes custos que se dizem silenciosos. E se nada for feito, a profissionalização que todas as entidades reclamam pode transformar-se num luxo apenas acessível a alguns.

O repto é claro, É tempo de rever o regime de seguros no futebol português, É tempo de discutir o equilíbrio entre prémio pago e risco efetivamente transferido e É tempo de envolver seguradoras, federação, liga, sindicatos e reguladores num modelo mais inteligente e mais justo.

Se o futebol português quer competir na Europa, tem de perceber que a competitividade não se conquista apenas no mercado de transferências ou na televisão. Também se conquista nos corredores da regulação. E é precisamente aí que estamos a perder o jogo sem que ninguém dê por isso.

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