Lei da SAF muda o dinheiro no Brasil, mas não (ainda) o conceito de sucesso
Quatro anos após a lei 14.193/2021, receitas sobem e investidores chegam, mas a cultura de curto prazo limita a transformação desportiva.
O que aconteceu
Em 2026, o futebol brasileiro entra no quinto ano da Lei da Sociedade Anónima do Futebol (SAF), que permite aos clubes migrarem de associações para sociedades comerciais. O modelo já soma 15 clubes nas Séries A e B (37,5% do total). Houve forte entrada de investimento, novos contratos de televisão e patrocínios de apostas, elevando salários e transferências próximas de €500M em 2024/25. Contudo, a prometida transformação cultural e de governação continua incompleta.
Por Que Importa
- A SAF abriu porta a capital e incentivos fiscais, separando activos de passivos históricos e permitindo emissão de dívida privada — chave para reperfilar dívidas e financiar crescimento.
- As receitas operacionais médias da Série A cresceram 73% (2015–2024) até €69,3M, colocando o Brasileirão como a 6.ª liga mundial por receitas médias (atrás das “Big Five” europeias, à frente de EFL Championship, Eredivisie, Primeira Liga e Pro League).
- O mercado de jogadores rendeu €1,5 mil M (2020/21–2024/25), com saldo líquido acumulado positivo de ~€400M, reforçando a sustentabilidade via formação e venda.
- Sem liga organizada com regras de sustentabilidade e supervisão, a volatilidade e o curto‑prazo continuam a travar o retorno do investimento (ROI) dos novos proprietários.
Números
- Série A 2025: 6 SAF (30%); Série B: 9 SAF (45%). Total: 15/40 clubes.
- Transferências 2024/25: quase €500M em compras. Maiores negócios citados: Vítor Roque para SE Palmeiras (€25,5M), Thiago Almada para Botafogo FR (€19,5M), Carlos Alcaraz para CR Flamengo (€18M). Transferências de Danilo (Botafogo FR) e Samuel Lino (CR Flamengo) acima de €20M (valores exactos não confirmados no período analisado).
- Investidores estrangeiros: Botafogo FR (Eagle Football/John Textor), CR Vasco da Gama (777 Partners — controlo perdido por questões legais), EC Bahia (City Football Group), Coritiba FBC (Grupo Independiente Del Valle, minoritário). RB Bragantino já operava sob Red Bull GmbH.
Contexto
- Exemplos de governação consistente como Flamengo e Palmeiras mostram que planeamento de longo prazo, redução de dívida e receitas diversificadas geram presença estável no topo (Série A e Libertadores 2025).
- Grupos multi‑clube (City Football Group, Red Bull) capitalizam inteligência local e processos padronizados, obtendo vantagem competitiva.
E agora?
- O sucesso no era SAF exige disciplina estratégica, métricas próprias e processos sobre indivíduos: escolha de treinadores, política de contratações, e integração da formação.
- Sem um enquadramento de liga que imponha fair play financeiro (não confirmado) e boas práticas de governação, a SAF tende a agregar capital sem reformar cultura e decisões dentro de campo.