A Difícil Arte de Ser Adepto em Portugal (2ª Parte)

O Caminho Para Colocar o Adepto no Centro

7 jan 2026 • 12:36
A Difícil Arte de Ser Adepto em Portugal (2ª Parte)

Introdução

No artigo anterior analisámos porque continua a ser difícil ser adepto em Portugal. Identificámos problemas estruturais na experiência, na oferta e na forma como o futebol português se posiciona enquanto produto de entretenimento e indústria económica.

Neste segundo artigo, o foco será outro: o caminho.

Não o caminho teórico, mas o caminho estratégico, exequível e alinhado com a realidade dos clubes, das ligas e das federações. A pergunta central é simples (e inevitável) para qualquer decisor:

O que tem de mudar para o futebol português gerar mais valor, mais receita e mais competitividade, sem perder a sua identidade?

A resposta não está apenas dentro do campo. Está na forma como a indústria se organiza, decide e investe.

O Adepto Como Ativo Estratégico (Não Como Variável Passiva)

Durante décadas, o futebol (global) tratou o adepto como consequência do jogo. Hoje, as ligas mais competitivas tratam-no como ativo estratégico. Isto implica uma mudança clara de mentalidade:

  • O adepto não é apenas público
  • É cliente recorrente (modelos de subscrição e fidelização)
  • É utilizador digital e fonte de dados
  • É motor de receitas e fator direto de valorização do clube

Sem adeptos envolvidos, satisfeitos e valorizados, não há crescimento sustentável.

Estratégia Primeiro: Antes da Tecnologia, Antes do Investimento

Um dos erros mais comuns é confundir transformação digital com compra de tecnologia. A ordem correta deve ser:

  • Estratégia clara de negócio e de produto
  • Definição do papel do adepto nessa estratégia
  • Modelo de receitas desejado
  • Só depois: ferramentas, plataformas e tecnologia

A estratégia deve responder onde queremos crescer (estádio, digital, internacional) e que receitas queremos desenvolver além da televisão.

Digital Como Infraestrutura, Não Como Marketing

No futebol moderno, o digital passou a ser infraestrutura crítica de negócio. Um clube ou liga competitiva precisa de:

  • Conhecer o adepto e comunicar de forma personalizada
  • Vender produtos e serviços de forma integrada
  • Criar engagement contínuo e medir impacto
  • Tomar decisões informadas através de um ecossistema sólido

Esse ecossistema inclui APP e website consistentes, bilhética digital integrada, CRM/CDP centralizado e conteúdos segmentados.

Dados: O Elemento que Falta na Tomada de Decisão

Iremos, muito em breve, demonstrar como existem cerca de €120M não contabilizados nos balanços das organizações desportivas em Portugal. Os dados são o meio para melhorar decisões:

  • Definir horários mais inteligentes e ajustar preços
  • Melhorar taxas de ocupação e receita por adepto
  • Personalizar experiências e profissionalizar a relação com patrocinadores

As ligas mais competitivas substituíram, há anos, a opinião pela evidência.

Conteúdo: Onde a Emoção se Transforma em Valor

O futebol vive de emoção, mas a emoção só cria valor quando é bem contada e distribuída. Conteúdo de valor significa:

  • Storytelling contínuo e acesso aos bastidores
  • Dados de performance e formatos short-form
  • Conteúdos exclusivos e experiências digitais permanentes

Sem conteúdo relevante, o digital perde força; sem digital forte, os dados empobrecem.

Ações Prioritárias Para os Próximos Anos

Para os decisores, o foco deve estar em ações estruturais:

Nos Estádios:

  • Digitalização da experiência e Wi-Fi como requisito base
  • Bilhética e acesso totalmente digitais
  • Zonas premium e melhoria do produto televisivo

No Modelo de Receita:

  • Redução da dependência de transferências e direitos TV
  • Crescimento de receitas próprias e memberships digitais
  • Ativação de dados para patrocinadores e e-commerce

Nos Recursos Humanos:

  • Contratação de especialistas em Dados, Digital, Conteúdo e Operações. Sem competências internas, não há execução.

Escala Através da Centralização

A maior oportunidade estrutural do futebol português passa por plataformas digitais partilhadas e dados centralizados. Modelos globais (NBA, NFL, F1) mostram que a escala tecnológica reduz custos e aumenta a eficiência.

Conclusão: Uma Janela Que Não Ficará Aberta Para Sempre

O futebol português enfrenta uma escolha: continuar a gerir com base no passado ou construir uma indústria moderna, orientada ao adepto e suportada por dados.

Colocar o adepto no centro não é uma decisão emocional. É uma decisão económica, estratégica e estrutural.

A felicidade do adepto é lucrativa, mas só para quem souber medi-la e transformá-la em valor.

Boas Festas e que 2026 nos traga um Futebol mais moderno, capaz e positivo para todos.

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