A Difícil Arte de Ser Adepto em Portugal (2ª Parte)
O Caminho Para Colocar o Adepto no Centro
Introdução
No artigo anterior analisámos porque continua a ser difícil ser adepto em Portugal. Identificámos problemas estruturais na experiência, na oferta e na forma como o futebol português se posiciona enquanto produto de entretenimento e indústria económica.
Neste segundo artigo, o foco será outro: o caminho.
Não o caminho teórico, mas o caminho estratégico, exequível e alinhado com a realidade dos clubes, das ligas e das federações. A pergunta central é simples (e inevitável) para qualquer decisor:
O que tem de mudar para o futebol português gerar mais valor, mais receita e mais competitividade, sem perder a sua identidade?
A resposta não está apenas dentro do campo. Está na forma como a indústria se organiza, decide e investe.
O Adepto Como Ativo Estratégico (Não Como Variável Passiva)
Durante décadas, o futebol (global) tratou o adepto como consequência do jogo. Hoje, as ligas mais competitivas tratam-no como ativo estratégico. Isto implica uma mudança clara de mentalidade:
- O adepto não é apenas público
- É cliente recorrente (modelos de subscrição e fidelização)
- É utilizador digital e fonte de dados
- É motor de receitas e fator direto de valorização do clube
Sem adeptos envolvidos, satisfeitos e valorizados, não há crescimento sustentável.
Estratégia Primeiro: Antes da Tecnologia, Antes do Investimento
Um dos erros mais comuns é confundir transformação digital com compra de tecnologia. A ordem correta deve ser:
- Estratégia clara de negócio e de produto
- Definição do papel do adepto nessa estratégia
- Modelo de receitas desejado
- Só depois: ferramentas, plataformas e tecnologia
A estratégia deve responder onde queremos crescer (estádio, digital, internacional) e que receitas queremos desenvolver além da televisão.
Digital Como Infraestrutura, Não Como Marketing
No futebol moderno, o digital passou a ser infraestrutura crítica de negócio. Um clube ou liga competitiva precisa de:
- Conhecer o adepto e comunicar de forma personalizada
- Vender produtos e serviços de forma integrada
- Criar engagement contínuo e medir impacto
- Tomar decisões informadas através de um ecossistema sólido
Esse ecossistema inclui APP e website consistentes, bilhética digital integrada, CRM/CDP centralizado e conteúdos segmentados.
Dados: O Elemento que Falta na Tomada de Decisão
Iremos, muito em breve, demonstrar como existem cerca de €120M não contabilizados nos balanços das organizações desportivas em Portugal. Os dados são o meio para melhorar decisões:
- Definir horários mais inteligentes e ajustar preços
- Melhorar taxas de ocupação e receita por adepto
- Personalizar experiências e profissionalizar a relação com patrocinadores
As ligas mais competitivas substituíram, há anos, a opinião pela evidência.
Conteúdo: Onde a Emoção se Transforma em Valor
O futebol vive de emoção, mas a emoção só cria valor quando é bem contada e distribuída. Conteúdo de valor significa:
- Storytelling contínuo e acesso aos bastidores
- Dados de performance e formatos short-form
- Conteúdos exclusivos e experiências digitais permanentes
Sem conteúdo relevante, o digital perde força; sem digital forte, os dados empobrecem.
Ações Prioritárias Para os Próximos Anos
Para os decisores, o foco deve estar em ações estruturais:
Nos Estádios:
- Digitalização da experiência e Wi-Fi como requisito base
- Bilhética e acesso totalmente digitais
- Zonas premium e melhoria do produto televisivo
No Modelo de Receita:
- Redução da dependência de transferências e direitos TV
- Crescimento de receitas próprias e memberships digitais
- Ativação de dados para patrocinadores e e-commerce
Nos Recursos Humanos:
- Contratação de especialistas em Dados, Digital, Conteúdo e Operações. Sem competências internas, não há execução.
Escala Através da Centralização
A maior oportunidade estrutural do futebol português passa por plataformas digitais partilhadas e dados centralizados. Modelos globais (NBA, NFL, F1) mostram que a escala tecnológica reduz custos e aumenta a eficiência.
Conclusão: Uma Janela Que Não Ficará Aberta Para Sempre
O futebol português enfrenta uma escolha: continuar a gerir com base no passado ou construir uma indústria moderna, orientada ao adepto e suportada por dados.
Colocar o adepto no centro não é uma decisão emocional. É uma decisão económica, estratégica e estrutural.
A felicidade do adepto é lucrativa, mas só para quem souber medi-la e transformá-la em valor.
Boas Festas e que 2026 nos traga um Futebol mais moderno, capaz e positivo para todos.