Quanto vale uma SAD em Portugal?

Os negócios dos últimos três anos desenham uma escada de preços: menos de 4 milhões de euros abaixo das ligas profissionais, 10 a 14 milhões na II Liga e 25 milhões ou mais na I Liga. Mas na maioria das vendas o preço nunca foi revelado.

12 out 2026 • há 2 horas • 7 min de leitura
Quanto vale uma SAD em Portugal? — Futebol & Negócios — levantamento próprio
Imagem via Futebol & Negócios

A lista de transparência da FPF mostra quem é dono das SAD portuguesas, mas não por quanto. Para responder a essa pergunta, o Futebol & Negócios reuniu as vendas de participações em sociedades desportivas anunciadas entre 2023 e outubro de 2026 e calculou, para cada uma, o valor implícito de 100% do capital: o preço pago a dividir pela percentagem comprada.

Ficam de fora FC Porto, Sporting e Benfica, cujas SAD estão cotadas em bolsa e cujo controlo não está à venda.

A escada de preços

Considerando apenas as operações em que o comprador ficou com o controlo da SAD, os valores agrupam-se por divisão:

SAD Liga na altura Data Participação Preço Valor implícito de 100%
Estrela da Amadora I Liga ago. 2026 90% cerca de 40 M€ cerca de 44 M€
Rio Ave I Liga nov. 2023 80% 20,5 M€ cerca de 26 M€*
Penafiel II Liga jul. 2025 90% 12 M€ cerca de 13 M€
Alverca II Liga fev. 2025 70% a 80% cerca de 10 M€ 12,5 a 14 M€
Tondela II Liga fev. 2025 80% até 8 M€ 10 a 11 M€
Trofense Liga 3 out. 2025 80% 3,125 M€ cerca de 3,9 M€
Gondomar Distrital (AF Porto) fev. 2026 80% 1,1 M€ cerca de 1,4 M€
  • No Rio Ave, os 20,5 milhões foram apresentados aos sócios como o valor correspondente a 80% da SAD, mas entraram de forma faseada e serviram também para pagar dívida, salários e outras responsabilidades. Não são, por isso, apenas um pagamento pelas ações.

Na I Liga, os dois negócios conhecidos ficam acima dos 25 milhões. O consórcio liderado pela ADvantage e pela LEAD, com Thomas Müller, Mats Hummels, Yann Sommer e Lucas Hernández entre os investidores, comprou 90% do Estrela da Amadora por um valor noticiado de cerca de 40 milhões. No Rio Ave, Evangelos Marinakis entrou com 80% em 2023.

Na II Liga, o intervalo é mais apertado. O Penafiel foi comprado pela Iberian Football Venture, do family office de Juan Carlos Escotet, dono do Deportivo da Corunha. O Alverca passou para o grupo ligado a Vinícius Júnior. O Tondela foi vendido ao grupo Élite, dono do Racing de Ferrol. Em todos, o valor implícito anda entre 10 e 14 milhões de euros.

Abaixo das ligas profissionais, os valores caem para outra ordem de grandeza. No Trofense, a assembleia geral aprovou em outubro de 2025 a venda de 80% à TSC – Trof Sports Center por 3,125 milhões. Desse valor, 1,8 milhões correspondem às ações e 1,325 milhões a terrenos.

No Gondomar, que joga na divisão principal da AF Porto, os sócios aprovaram a 23 de fevereiro de 2026 a venda de 80% da SAD a um fundo gerido pela BlueCrow Capital por 1,1 milhões de euros. O clube mantém 20% e a propriedade das instalações, pelas quais a SAD paga renda. O acordo inclui ainda um compromisso de investimento de 4 milhões em infraestruturas, que não faz parte do preço. O clube foi afastado das competições profissionais em 2009, no processo Apito Dourado. Em 2025, o Supremo Tribunal Administrativo negou o recurso da FPF e confirmou a nulidade dessa despromoção, e a reintegração na II Liga está a ser negociada.

Os sinais fora do controlo

Há ainda operações que não deram o controlo ao comprador, mas que também indicam valores:

  • Famalicão: em fevereiro de 2026, o clube vendeu 4,98% da SAD por 700 mil euros, o que implica cerca de 14 milhões para 100%. É uma venda ao acionista que já detinha a maioria, a Quantum Pacific, e não uma venda em mercado aberto.
  • Vitória SC: em 2023, a V Sports, dos donos do Aston Villa, acordou pagar 5,5 milhões por 46% da SAD, o que implica cerca de 12 milhões. Por imposição da UEFA, a participação foi depois reduzida para 29%, sem alteração do valor.
  • Paços de Ferreira: os sócios aprovaram em abril a entrada da PMK Sports com 49,9% de uma SAD ainda por constituir, por 1,25 milhões de euros e a assunção de passivo até 5,6 milhões.
  • Belenenses: na Portugal Football Summit, em setembro, Patrick Morais de Carvalho, presidente e recandidato, e António Caçorino, da APEX, apresentaram a parceria proposta pela candidatura: 12,5 milhões de euros em suprimentos ao longo de quatro épocas, convertíveis em ações até um teto de 49%. Se a conversão for total, o valor implícito é de cerca de 25,5 milhões para 100%. O clube manteria a maioria, a marca e todo o imobiliário, incluindo o Restelo. A proposta depende da assembleia geral eleitoral de 24 de outubro. Ao contrário de uma venda de ações, o dinheiro entra na sociedade e não vai para os acionistas.

Os negócios que não se fizeram

Dois negócios aprovados pelos sócios em 2025 apontavam para valores mais altos do que os da maioria das vendas concretizadas, mas não chegaram ao fim:

  • Marítimo: a venda de 40% ao grupo brasileiro Revee por 15 milhões, com opções para mais 20% ao mesmo preço, implicava 37,5 milhões para 100%. O clube encerrou as negociações em outubro de 2025 por falta de garantias.
  • Nacional: a venda de 60% à ACA Football Partners, de Singapura, por 13 milhões, implicava cerca de 22 milhões. A primeira tranche não foi paga e o negócio caiu.

O preço que ninguém conhece

Em pelo menos nove operações recentes, o preço não foi divulgado:

  • Chaves: grupo mexicano de Arturo Lomelí (Clase Azul);
  • Moreirense: Black Knight, de Bill Foley;
  • Casa Pia: acordo com o Krause Group, dono do Parma;
  • Sintrense: Blue Ocean Group, de Felix Krüger;
  • Sanjoanense: AMCNO em 2025 e James Yott em 2026;
  • São João de Ver: grupo de que faz parte Dani Alves;
  • Sporting de Braga: reforço da Qatar Sports Investments, de 21,67% para 29,6%, em 2023;
  • Portimonense: aumento de capital subscrito pela For Gool em 2025.

Em alguns destes casos, foram anunciados compromissos de investimento em vez de um preço. O Moreirense, por exemplo, contratualizou com a Black Knight 15,8 milhões de euros para a academia e para a equipa principal, além de um estádio novo. No Chaves, o novo dono comprometeu-se a investir até 4 milhões no estádio. No Gondomar, como acima, os 4 milhões em infraestruturas também ficam fora do preço. Estes valores são investimento no clube ou na SAD e não pagamento pelas ações, pelo que não entram nas contas acima.

As SAD que não estão cotadas em bolsa não são obrigadas a divulgar o preço das vendas de ações. A lista de transparência da FPF mostra quem é dono, mas não diz por quanto.

Como ler estes números

  • Valor das ações, não da empresa: o cálculo dá o valor implícito do capital. Quando o comprador assume dívida ou financia a operação, o valor total da empresa é maior.
  • Controlo vale mais do que minoria: uma compra que dá o controlo inclui normalmente um prémio. Uma participação minoritária, ou uma venda ao acionista que já manda, segue outra lógica.
  • Nem tudo é dinheiro: terrenos, academias, estádios e financiamento mensal fazem parte de vários negócios e nem sempre são comparáveis.
  • Valores noticiados: vários preços foram divulgados pela imprensa e não confirmados oficialmente pelas partes. Os valores do Trofense, Famalicão, Rio Ave, Marítimo, Nacional, Vitória SC e Paços de Ferreira foram apresentados aos sócios.
  • Percentagens: usamos as percentagens anunciadas nos negócios, que em alguns casos diferem das registadas na lista da FPF.
  • Mercado em mudança: a amostra cobre 2023 a 2026, um período de forte entrada de capital estrangeiro no futebol português.

Fontes: ECO, DN, A Bola, Forbes Portugal (Estrela da Amadora); Dinheiro Vivo e A Bola (Rio Ave); Bola na Rede e A Bola (Penafiel, Alverca); A Bola e Record (Tondela); O Notícias da Trofa (Trofense); A Bola (Gondomar); SAPO e Cidade Hoje (Famalicão); DN e Record (Vitória SC); A Bola e Imediato (Paços de Ferreira); candidatura "Acreditar no Belenenses" (sessão na Portugal Football Summit) e ECO (Belenenses); DN Madeira e A Bola (Marítimo); A Bola e RTP (Nacional); Record, A Bola, Krause Group e Soccerway (Chaves, Moreirense, Casa Pia); FPF, Transparência – Informação Comunicada 2026/27.

Sem spam, cancele quando quiser. Ao subscrever aceita os Termos e a Política de Privacidade da Substack.