# Mudar de Ideias Não É Incoerência. É Liderança. E o Futebol (Ainda) Não Percebeu.

> Perante novas formas de criar valor, insistir nas métricas de sempre deixou de ser prudência. Da Fan Economy à AI Economy, Nuno Mena explica por que os clubes precisam de rever convicções e medir o verdadeiro valor económico de cada adepto.

- Publicado: 2026-07-30 16:29
- Autor: Nuno Mena
- Tags: Opinião, Opinião, Cronica
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## Cinco economias e o IVA (não é o imposto)

Durante anos, o futebol português habituou-se a medir o sucesso através das **assistências**, do número de **sócios**, das **audiências** televisivas ou dos **seguidores** nas redes sociais. Todas continuam a ser métricas importantes. Mas **deixaram de ser suficientes**.

Porque afinal **quanto vale, financeiramente, um adepto?**

Não quanto paga por um bilhete. Nem quanto custa uma quota. Mas quanto pode gerar ao longo de toda a sua relação com o clube.

Curiosamente, sabemos responder rapidamente ao valor de um jogador, de um contrato televisivo ou de um patrocinador.

Mas poucos clubes conseguem responder à pergunta: **Quanto vale um adepto durante 10, 20 ou 30 anos?**

Talvez seja precisamente aqui que esteja **uma das maiores oportunidades económicas** do futebol português e europeu.

## Já o maior ativo ainda não aparece nas contas

Tenho vindo a defender que o verdadeiro desafio da indústria não passa apenas pela negociação dos direitos audiovisuais. **Passa por aumentar o valor do próprio produto.**

E o valor desse produto começa na perceção das **“diferentes economias”** que existem no futebol, neste momento.

O mais recente relatório do *Futebol e Negócios* sobre a presença digital dos clubes portugueses demonstra que a **Liga Portugal e as Sociedades Desportivas** reúnem uma comunidade digital superior a **40 milhões de seguidores**.

À primeira vista, o número impressiona. Mas existe um problema:

**Seguidores não são clientes.**

**Likes não são receitas.**

**Audiência não é, por si só, um ativo económico.**

Enquanto essa relação permanecer dentro do Instagram, Facebook, TikTok ou YouTube, o **verdadeiro proprietário dos dados continua a ser a plataforma**.

O ativo só passa verdadeiramente para o clube quando esse adepto é identificado, conhecido e integrado no seu ecossistema digital. **É aí que começa a criação de valor.**

## Quanto dinheiro está realmente em jogo?

Façamos um exercício:

Imaginemos que os clubes portugueses conseguem converter apenas **5%** da sua audiência digital em adeptos registados nas suas próprias plataformas. Num universo superior a **40 milhões de seguidores**, isso representa aproximadamente **2 milhões de adeptos identificados**.

Agora imaginemos que cada um desses adeptos gera apenas **25 euros por ano** através de merchandising, bilhética, memberships, conteúdos premium, programas de fidelização, parceiros comerciais ou experiências.

O resultado é simples.

**50 milhões de euros de novas receitas recorrentes por ano.**

Sem vender um único jogador.

Sem renegociar os direitos televisivos.

Sem aumentar o preço dos bilhetes.

Se essa receita média aumentasse para **40 euros por adepto**, o potencial ultrapassaria os **80 milhões de euros anuais**.

E se os clubes evoluíssem para níveis de conversão semelhantes aos observados nas organizações desportivas mais avançadas, estaríamos a falar de uma nova categoria de receitas estruturais para o futebol português.

A verdadeira questão deixa então de ser:

**“Quantos seguidores temos?”**

E passa a ser: **“Quanto valor conseguimos criar com eles?”**

## Fan Economy, Data Economy e AI Economy: a nova cadeia de valor

**É precisamente aqui que entram três das cinco novas economias do futebol.**

A **Fan Economy** ensina-nos que o adepto deixou de ser apenas um consumidor de bilhetes para passar a ser um **ativo económico de longo prazo**.

A **Data Economy** demonstra que o verdadeiro valor já não está na dimensão da audiência, mas na **capacidade de conhecer cada adepto, compreender os seus comportamentos e construir uma relação personalizada**.

E a **AI Economy** permite fazer aquilo que, até há poucos anos, era praticamente impossível: personalizar a comunicação, automatizar campanhas, recomendar produtos, antecipar comportamentos e criar experiências únicas para centenas de milhares de adeptos em simultâneo.

As três economias não competem entre si.

**Complementam-se.**

**Sem adeptos não existem dados.**

**Sem dados não existe Inteligência Artificial útil. E mais de 75% dos clubes não têm identidade digital dos seus adeptos.**

**Sem Inteligência Artificial torna-se muito mais difícil transformar dados em receitas.**

É esta cadeia que explica porque algumas organizações, em várias áreas, estão a aumentar o seu valor muito mais rapidamente do que outras.

## Mas esta é apenas metade da transformação

Conhecer melhor os adeptos é apenas o primeiro passo. **A criação de valor cresce quando essa relação é alimentada diariamente.**

É precisamente aqui que entram duas outras economias que irão marcar o futuro da indústria.

A **Creator Economy**, onde **os clubes, os seus fãs e adeptos** deixam de ser apenas organizações desportivas para se tornarem **produtores permanentes de conteúdo**, capazes de gerar novas audiências, aumentar a exposição internacional e **criar novas fontes de receita**.

E a **Experience Economy**, onde o **estádio** deixa de ser apenas um local para assistir a um jogo e passa a ser uma **plataforma de entretenimento, hospitalidade, turismo, experiências premium e consumo durante os 365 dias do ano**.

Se a Fan Economy, a Data Economy e a AI Economy respondem à pergunta **“Como conhecemos melhor os nossos adeptos?”**, a Creator Economy e a Experience Economy respondem à questão seguinte: **“Como aumentamos o valor que cada adepto gera ao longo da vida?”**

É precisamente sobre estas economias que incidiremos.

## IVA. A grande e nova métrica do “futebol negócio”

Como referimos, durante décadas medimos aquilo que era mais fácil contar.

**Assistências.**

**Sócios.**

**Seguidores.**

**Visualizações.**

Mas nenhuma destas métricas responde à pergunta que verdadeiramente interessa a um presidente, a um administrador ou a um investidor.

**Quanto valor económico cria cada adepto ao longo da sua relação com o clube?**

Por isso, chegou o momento de o futebol português começar a medir não apenas a dimensão das suas comunidades, mas **o valor que consegue criar com elas**.

Nos próximos artigos, aqui no *Futebol e Negócios*, apresentaremos um novo conceito de análise para a indústria: o **IVA, Índice de Valor do Adepto**.

O futuro do futebol não será decidido pelos clubes com mais seguidores ou pelos que vendem mais.

**Será decidido pelos clubes que conseguirem transformar cada adepto num ativo estratégico, recorrente e sustentável.**
