# A Difícil Arte de Ser Adepto em Portugal (1ª Parte)

> O adepto não é apenas o destino final do produto. É o motor do seu valor.  O papel do adepto, dentro desta mudança de cultura, é ser o intérprete, garante,  executor e avaliador dessas mudanças, bem como o medidor da qualidade do  espetáculo, da relação, das ofertas e das mensagens prestadas.

- Publicado: 2025-12-10 09:49
- Autor: Nuno Mena
- Tags: Opinião, Opinião, Cronica
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## Introdução

No primeiro artigo desta (esperamos, longa) série de artigos de opinião, propus-me a trazer para a discussão e partilha entre todos os que direta e indiretamente estamos ligados à indústria do futebol, uma análise puramente factual, estratégica e, em base desses elementos, trazer possíveis caminhos para contribuir para o crescimento da indústria de forma global (não há respostas únicas e ninguém vai trazer a “solução mágica”).

Propus-me também, em base da minha experiência profissional do meu *background*, começar a desenvolver um conjunto de vias estratégicas que, sendo bem implementadas pelos atores e responsáveis do nosso futebol, certamente irão trazer resultados positivos e sustentáveis. E é mesmo isso que vamos tratar!

Ser Adepto (com letra maiúscula) de futebol em Portugal continua a ser, muitas vezes, um exercício de **resistência**. Resistência à má experiência global, desconforto, aos horários, às condições dos estádios, ao ambiente, às narrativas tóxicas e, acima de tudo, à falta de evolução de um “produto” que continua pouco competitivo, pouco personalizado e pouco orientado ao consumidor.

Mas por trás de tudo isto existe um problema ainda mais profundo:

* não existe, em Portugal, uma verdadeira estratégia de experiência do adepto; 
* não existe um ecossistema digital integrado; 
* não existem dados suficientes para tomar decisões inteligentes; 
* e a cultura da indústria ainda não evoluiu para um modelo orientado ao cliente.

O resultado é simples: **apesar da paixão gigantesca, Portugal torna difícil aquilo que devia ser uma experiência inspiradora.**

***

## A Experiência é Fraca Porque a Indústria Ainda Não É de Base Digital

Os setores que mais cresceram nas últimas décadas – media, retalho, aviação, entretenimento, banca - fizeram-no porque colocaram o cliente no centro, criaram experiências personalizadas e investiram profundamente em dados e tecnologia.

O futebol português, pelo contrário, ainda opera com:

* infraestruturas analógicas, 
* bilhética fragmentada, 
* plataformas digitais inconsistentes, 
* ausência de CRM/CDP, 
* pouca personalização da experiência, 
* pouca integração tecnológica nos estádios e de suporte a departamentos fundamentais da operação e gestão, 
* quase nenhuma recolha de dados contextuais do adepto.

**E como é óbvio, se não conhecemos, não conseguimos servir o adepto.**

**E quando não servimos o adepto, o produto perde valor.**

## Estádios: A Primeira Barreira Entre a Indústria e o Adepto

Os estádios portugueses revelam grande parte do gap competitivo.

Problemas mais frequentes:

* cadeiras degradadas, bancadas desconfortáveis, sem cobertura; 
* casas de banho insuficientes; 
* acessos difíceis; 
* fraca oferta de comida e bebida; 
* pouca presença de zonas *premium* e *hospitality*; 
* ausência de tecnologia (*wi-fi*, bilhete digital, pagamento no lugar, interação pré-durante e pós jogo); 
* nenhum mecanismo de recolha e análise de dados comportamentais; 
* fraca qualidade do produto televisivo.

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**O estádio devia ser um ativo o maior ativo comercial físico e tecnológico, e não apenas um local para “disputar jogos”.**

*Exemplo positivo: o **FC Alverca**, que investiu na melhoria estrutural e elevou experiência e produto televisivo. A prova de que é possível (e em tempo recorde).*

## Horários: O Sintoma Mais Claro da Falta de Dados

A marcação de jogos continua a ser feita com base em critérios que não consideram:

* padrões de mobilidade, * clima, * perfis sociodemográficos, * horários de maior propensão para compra, * distância potencial dos adeptos, * comportamento histórico de audiência.

Sem Dados, a decisão é sempre “menos boa”.

**Qualquer adepto percebe isto:** A probabilidade de um Chaves–Farense ao domingo às 18h00 ter boa afluência é reduzida, mas a decisão continua a ser tomada sem modelos analíticos, sem *forecasting* e sem segmentação.

A centralização dos direitos audiovisuais vai ajudar muito a Liga Portugal e os Clubes, mas **sem dados integrados, continuaremos a gerir às cegas.**

## Intervenientes do Jogo: Experiência Não é Só Tecnologia, Também é Cultura

A experiência e forma de estar do adepto é moldada também por comportamentos e perceções (uma palavra muito em voga).

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### Dirigentes e Treinadores

A narrativa pública não contribui para a valorização do produto. Mais do que melhorar a indústria, muitas vezes degradam-na.

### Jogadores

São o principal ativo emocional do adepto. É importante que aos atletas sejam incutidos valores da cultura de performance, lealdade, verdade e resiliência que faz parte dos valores fundamentais do futebol (e da vida).

Culturas futebolísticas como a inglesa ou alemã promovem fair-play, intensidade, respeito e qualidade competitiva e por isso são as mais vistas (como o Rugby).

Em Portugal, ainda há demasiada tolerância para comportamentos que empobrecem o espetáculo. Aqui entra a **Justiça Desportiva** e como ela é aplicada e também como o atleta se posiciona enquanto parte integrante da indústria.

Recordo as palavras de Bernardo Silva numa recente entrevista: *“(...) Cais uma vez o árbitro não marca, cais a segunda o árbitro não marca, à terceira já não cais (...)”* onde acrescento, se cais, levas cartão.

### Árbitros

Sem tecnologia, carreira, **remuneração** e **proteção**, não há fiabilidade.

Sem fiabilidade, não há produto.

Sem produto, não há experiência.

### Jornalistas e Comentadores

Num mundo de conteúdos de qualidade, a nossa narrativa continua presa ao ruído e à polémica.

O *storytelling* é um ativo e em Portugal está largamente desaproveitado.

***

*Exemplo positivo: a **Liga TV**, que se posiciona cada vez mais num formato próximo das plataformas de streaming com conteúdos muito relevantes e como plataforma para todos os clubes.*

## Conclusão da 1ª Parte (E O Que Falta)

A dificuldade de ser adepto em Portugal tem causas claras (não exaustivo):

✓ infraestruturas desajustadas 
✓ experiência pobre 
✓ ausência de ferramentas digitais 
✓ inexistência de dados 
✓ modelo de decisão não orientado ao consumidor 
✓ falta de estratégia de negócio integrada 
✓ narrativa pouco valorizadora

Mas, como referimos no último artigo, este conjunto de fragilidades é, simultaneamente, **a maior oportunidade da década.**

Nunca tivemos tantas condições para transformar o futebol português:

* tecnologias acessíveis, 
* plataformas modernas, 
* capacidade de recolher dados, 
* talento nacional, 
* interesse de investidores, 
* centralização dos direitos, 
* dirigentes mais sensibilizados para inovação.

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💥 **A indústria está finalmente à beira do salto que ficou adiado durante mais de 30 anos.**

E é precisamente isso que vamos explorar na próxima semana:

**Como colocar o adepto no centro da estratégia através de Dados, Digital, Conteúdo e novos modelos de negócio e porque esta mudança pode transformar o valor da indústria portuguesa até 2030.**
